O drama das pessoas desaparecidas
Enviada em 13/11/2021
Na série norte-americana “Sombras e Ossos”, a personagem Inej passa a trabalhar, ainda criança, de maneira análoga à escravidão em um Bordel, após ser vítima do tráfico de pessoas, durante a divisão do reino de “Ravka”. Assim, a coadjuvante, configurada como uma pessoa desaparecida, ao longo da narrativa tenta, ininterruptamente, reencontrar a sua família. Fora da obra cinematográfica,no entanto,os dramas vivenciados pelos indivíduos desaparecidos,não ficam restritos a ficção, sendo reverberados no contexto brasileiro hodierno,tendo como principal potencializador dessa realidade a incúria estatal.
Em primeira análise, é imprescindível considerar as condições desumanas que, em grande parte das vezes, essas pessoas desaparecidas são submetidas. Consoante a isso, cabe destacar que para Thomas Marshall, ex-político norte-americano, o indivíduo só é considerado cidadão a partir do momento que usufrui dos seus direitos sociais e políticos. Conquanto, percebe-se que o pensamento do intelectual não é consolidado,no território tupiniquim, tendo em vista que esses sumidos, seja por vontade própria ou de forma forçada,contemplam mercados, como exploração sexual, tráfico de órgãos e trabalhos análogos à escravidão, que não respeitam os direitos humanos. Isso, por sua vez, mostra-se preocupante, pois essas pessoas, que não são consideradas cidadãos para Marshall, passam a vivenciar situações insalubres à dignidade, tal como presenciado pela personagem do seriado.
Em segunda análise,cabe destacar a negligência governamental como um dos fatores que dificultam a atenuação dessa problemática. Essa atitude, por sua vez, vai ao encontro do pensamento de Gilberto Dimenstein, em seu livro “Cidadão de Papel”,ao afirmar que embora as leis sejam garantidas na legislação, na prática elas não ocorrem, já que são subtraídas pelo Estado.Sob esse viés, mesmo que a Constituição Federal assegure o direito à segurança e qualidade de vida, percebe-se que tais prerrogativas não estão sendo reverberadas, pois várias crianças e jovens continuam sumindo, por se tornarem vítimas do tráfico ou de assassinatos,essa constatação pode ser evidenciada por cerca de oitenta mil pessoas desaparecem anualmente no Brasil, segundo o Ministério da Segurança Pública.
Destarte, mais medidas são necessárias para a resolução desse impasse. Para isso, cabe ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, em parceria com as midias televisivas e digitais, promoverem uma busca mais eficiente dessas pessoas, por meio de anúncios e publicações (em horários com maior número de usuários ou telespectadores)sobre os desaparecidos, bem como estabelecerem listas online, que contemplem os nomes dos indivíduos e informações para contato, para que possam auxiliar na identificação. Como efeito social, não haverá mais uma “cidadania de papel”, permitindo que casos de pessoas afastadas de sua família, assim como presenciado por Inej, permaneçam apenas na ficção.