O drama das pessoas desaparecidas
Enviada em 15/11/2021
Segundo a filósofa Marilene Chauí, em uma sociedade democrática devem ser criadas políticas que beneficiem toda população. No entanto, o cenário brasileiro atual, no qual o número de pessoas desaparecidas cresce continuamente, não compactua com tal citação. Sob essa óptica, vale analisar os fatores causais do impasse, como a fragilidade das relações humanas e o preconceito quanto à opção sexual de um cidadão.
Em primeira análise, é importante ressaltar como o desenvolvimento dos relacionamentos interpessoais compromete a reversão da situação. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade vive a chamada “modernidade líquida”, na qual há fluidez dos valores, com o intuito de atender os interesses pessoais. Nessa perspectiva, no Brasil atual, é possível estabelecer um paralelo com a teoria de Bauman, no que tange à persistência de estatísticas elevadas referentes ao desaparecimento de seres humanos, pois com a permanência de uma população que coloca o bem-estar individual acima do coletivo, aumentam-se as possibilidades de um indivíduo se expor à situações de perigo, as quais acarretam em desaparição. Consequentemente, dados como o apresentado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o qual estimou que, em 2019, cerca de 82 mil pessoas estavam desaparecidas, representarão uma constante no país caso políticas públicas não forem implementadas.
Ademais, a presença de um preconceito relacionado à orientação sexual de um cidadão corrobora o impasse. À título de exemplo, pode-se citar o levantamento realizado pelo site “Cidade Livre”, o qual revelou que entre os 27% da população jovem desaparecida, a parcela que compreende o grupo feminino foge de sua casa devido à rejeição da família quanto à sua opção sexual. Nesse sentido, tal realidade representa o oposto da defesa de Hannah Arendt, filósofa que em seus estudos abordou o fato de a diversidade ser um aspecto inerente à espécie humana, e por isso, sua naturalização é vital. Por conseguinte, se a sociedade tomar consciência dessa concepção, os jovens não se sentirão desamparados diante de uma escolha digna de respeito.
Logo, ações para o combate do desaparecimento de pessoas são essenciais. Portanto, o Ministério da Educação deverá instaurar, nas escolas de todo o país, rodas de conversa e projetos entre os alunos e seus pais, por meio dos quais serão desenvolvidos debates e atividades interativas, visando o fortalecimento das relações interpessoais, a fim de propiciar um aumento da empatia com o restante da população, bem como a desconstrução de uma mentalidade a qual encara como errado orientações sexuais distintas do tradicional. Assim, a citação de Chauí poderá tornar-se uma realidade,