O esporte como ferramenta de inclusão social no Brasil
Enviada em 16/04/2020
Émile Durkheim conceituou “fato social” como normas e padrões comportamentais que vivem na consciência coletiva e ditam coercitivamente a conduta de um indivíduo. É um “fato social” no Brasil a desvalorização do esporte como mecanismo de ação na luta contra a segregação de grupos vigente no país. Nesse sentido, como as atividades físicas podem servir à população brasileira em prol dos menos favorecidos?
A priori, sob o aspecto literário, a obra “Jogos Vorazes” de Suzanne Collins traz uma reflexão sobre o assunto. Em seu enredo, são selecionados jovens das diversas partes de uma nação para lutarem por fama e dinheiro até a morte. Estes podem ao longo do jogo ser patrocinados por grandes poderosos, o que lhes daria regalias e facilitaria suas vidas. A trama, porém, revela a enorme desigualdade existente entre cada um deles, muitos, já vindos de distritos mais ricos, foram treinados para vencer, outros, sofriam as consequências da “roleta russa” do destino ao terem passado muitas dificuldades e serem pouco preparados para estar lá. De maneira análoga, o esporte no Brasil vive tal realidade, poucos chegam a um lugar de destaque e para tanto devem vencer as enormes barreiras impostas no caminho. A falta de patrocínio e oportunidades faz com que os mais pobres que tentem ascender acabem por desistir e muitas vezes cair no mundo do crime organizado.
A posteriori, a educação física contribui para o desenvolvimento de habilidades emocionais e interpessoais. Como consequência, à exemplo da Noruega, vê-se uma remissão nos casos de pessoas privadas de liberdade, as quais, por meio do esporte, conseguem ser reintroduzidas na sociedade e as taxas de reincidência criminal são mínimas. Sob esse prisma, a atividade física torna-se indispensável no caso brasileiro, o qual vive em meio a um sistema prisional superlotado e com índices altos de reincidência ao crime.
Portanto, a educação física deve ser levada a sério, e, para que essa problemática seja mitigada, é indispensável a introdução de uma “ação social racional”, ato consciente que pode transformar o “fato social”, à luz de Weber, na qual o Estado tem um papel essencial: a introdução e incentivo do esporte nas diversas esferas da sociedade. Ao Ministério da Educação, cabe reformular os currículos escolares nos Ensinos Fundamental e Médio, a fim de que seja dado um maior peso à Educação Física. À Secretaria do Esporte, compete a criação de centros esportivos em áreas periféricas, a fim de prover mais condições de acesso ao esporte àqueles que possuem deficiências financeiras. E, por fim, ao Ministério da Segurança Pública, calha o investimento em programas de incentivo ao esporte dentro de penitenciárias, tanto em profissionais capacitados à instrução, quanto em equipamentos esportivos.