O esporte como ferramenta de inclusão social no Brasil

Enviada em 20/10/2021

A série “O Gambito da Rainha”, da plataforma digital Netflix, retrata a história de Beth Harmon, uma adolescente órfã que encontra no xadrez uma maneira de superar os problemas pessoais, como a morte da mãe e o vício em substâncias alcoólicas. Fora da ficção, o enredo desse longa-metragem põe em pauta a possibilidade de inclusão social por meio da prática esportiva. No entanto, quando vislumbrado esse cenário na conjuntura brasileira, o quadro encontra numerosos obstáculos, a exemplo da negligência governamental e da falta de incentivo comunitário.

Em primeira análise, cabe destacar o impacto da manutenção, por parte do Estado, de uma política que avança em passos letárgicos na persistência do imbróglio. Nesse sentido, é lícito mencionar a célebre teoria da “Instituição Zumbi”, em que o filósofo polonês Zygmunt Bauman critica a ineficiência do aparato administrativo em exercer as funções destinadas a ele. Dessa maneira, essa face materializa-se no panorama verde-amarelo na medida em que a instância máxima de poder não oferece infraestrutura de qualidade para que jovens, em especial os moradores das periferias urbanas, possam desenvolver habilidades esportivas. Com isso, nota-se que a falta de investimentos financeiros na construção de quadras escolares, por exemplo, confirma a tese baumaniana na sociedade nacional.

Ademais, é imperativo pontuar o precário estímulo civil como um dos fatores que validam o estorvo. Nessa senda, de acordo com o livro “Ensaio Sobre Cegueira”, o literato português José Saramago define eclipse de consciência como a imobilidade do povo em relação aos entraves enfrentados pelos cidadãos. Esse preceito reverbera na nação tupiniquim no que concerne a apatia do corpo coletivo contemporâneo em incentivar o ingresso da juventude no desporto, obstruindo, assim, o processo de inclusão promovida por essas atividades. Dessa forma, a carência de apoio, sobretudo monetário, revela a faceta obscura da comunidade e inviabiliza, consequentemente, o construto dos valores cultivados por essas ocupações físicas, tais como a disciplina, a superação e o respeito.

Verifica-se, portanto, a necessidade de ações capazes de reverter esse preocupante contexto pátrio. Para tanto, urge que o Governo Federal, por intermédio da cessão de capital público aos órgãos competentes, desenvolva projetos voltados para a promoção de melhorias infraestruturais nos espaços destinados às práticas físicas das instituições de ensino de todo país, a fim de ampliar e aprimorar os mecanismos de inserção social dos jovens. Outrossim, é imprescindível que ONG’s proporcionem, por meio de massivas campanhas divulgadas nos meios midiáticos, a luta por maior estímulo e valorização do esporte, com o intuito de desconstruir o caráter inerte da população canarinha. Destarte, tornar-se-ia possível que a realidade de Harmon fosse vivenciada por diversos núcleos brasileiros.