O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira
Enviada em 27/09/2021
O filme “The normal heart” aborda o cenário caótico que marcou o início da disseminação da AIDS em Nova York nos anos 80, assim como a luta de ativistas LGBT para dissociar a doença à homossexualidade, em uma época em que os discursos de ódio relativos à diversidade sexual eram socialmente aceitos. De forma análoga à película, o preconceito enfrentado pela população soropositiva deriva tanto da falta de informação quanto da permanência do pensamento que atrela o vírus a grupos marginalizados. Ao ter em mente a importância do debate no combate à discriminação, faz-se necessária a discussão acerca dos estigmas associados ao HIV no Brasil.
Em primeira análise, é fulcral pontuar que a desinformação é o motor propulsor da hostilidade social com os portadores de HIV, uma vez que parte da população desconhece as formas reais de transmissão e temem contrair o vírus simplesmente por conversar ou tocar em um soropositivo. Sob essa ótica, a falta de informação contribui para suprimir a sensibilidade humana em relação aos imbróglios enfrentados por aqueles que sofrem com a AIDS, o que o escritor José Saramago denomina em sua obra “Ensaio sobre a cegueira” como o “eclipse da consciência”. Em suma, esse desconhecimento alimenta as práticas de segregação social.
Em segunda análise, ocorre a manutenção da crença errônea de que a AIDS é uma patologia relegada às prostitutas, dependentes químicos e homossexuais, grupos que já são historicamente excluídos da sociedade. Nesse sentido, o atrelamento da doença a aspectos não ortodoxos tem sua raiz no que a filósofa alemã Hanna Arendt denomina “massificação social”, cenário no qual os sujeitos sociais calam-se diante de questões que prejudicam grupos menos favorecidos e, como resultado, o preconceito é fomentado e impede o cumprimento dos direitos sociais e a universalização da plena cidadania.
Depreende-se, portanto, a relevância do debate acerca dos estigmas com os portadores do vírus do HIV. Dessarte, com o intuito de mitigar as práticas de intolerância no Brasil, é mister que o governo federal, por meio do Tribunal de Contas da União, direcione capital para o Ministério da Saúde, que deverá reverter a verba na elaboração e divulgação de material midiático informativo que aborde todas as dúvidas sobre a AIDS, com o obejtivo de focar nas formas de se contrair o vírus, bem como na demonstração, mediante a depoimentos de soropositivos, que estes possuem uma vida normal como qualquer outro cidadão e, por consequência, merecem respeito. Dessa forma, espera-se elucidar a população acerca das percepções equivocadas quanto à AIDS para ajudar no combate às práticas discriminatórias.