O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira
Enviada em 01/10/2021
Na obra “Utopia”, de Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e de problemas. No entanto, o que se observa na contemporaneidade é o oposto do que o autor prega, uma vez que o estigma associado ao HIV representa barreiras, as quais dificultam a concretização dos planos de More. Diante dessa perspectiva, faz-se imperiosa a análise da inoperância estatal e do falho sistema educacional, fatores que favorecem esse panorama.
Convém ressaltar, a princípio, a negligência estatal frente a essa questão. Nesse sentido, segundo a Agência Brasil, 46,3% dos soropositivos brasileiros já sofreram comentários discriminatórios por serem portadores do vírus da Aids. Dessa forma, evidencia-se que o Estado, ao não concentrar esforços na desconstrução do estigma atrelado a essa doença, contribui para a manutenção de ações preconceituosas, que ainda são, lamentavelmente, lançadas sobre esse grupo populacional, o que pode desestimular o diagnóstico precoce e o tratamento. Essa conjuntura, segundo o filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do que ele denomina por “Contrato Social”, já que o Estado não cumpre o seu dever de assegurar aos cidadãos direitos indispensáveis, como a saúde. Esses aspectos, infelizmente, são notórios no país.
Ademais, convém ressaltar o falho sistema educacional como impulsionador desse quadro deletério. Nesse viés, o rapper Gabriel o Pensador, ao denunciar o modelo educacional brasileiro, em “Estudo Errado”, diz “Decorei toda a lição, não errei nenhuma questão, não aprendi nada de bom, mas tirei dez.” A partir disso, pode-se inferir que caso as escolas não promovam os estudantes para a plena consciência da realidade na qual estão inseridos - instruindo-os sobre a importância dos testes de soropositividade e conscientizando-os da existência do tratamento e da possibilidade de uma vida normal - eles serão incapazes de contribuir para uma sociedade mais saudável e menos estigmatizada, tendo em vista que replicarão discursos preconceituosos e arcaicos em relação ao HIV. Logo, é inadmissível que essa realidade continue a perdurar.
Depreende-se, portanto, a necessidade de combater a problemática elencada. Para isso, o Executivo, por meio do sistema educacional e da capacitação de professores para a abordagem do assunto, deve realizar palestras nas escolas, a fim de conscientizar os jovens sobre a prevenção e o tratamento do HIV e de outras ISTs. Isso deve reduzir, a longo prazo, o estigma do corpo social em relação a essas doenças, bem como diminuir as infecções e incentivar o acesso ao tratamento. Assim, será concretizada uma sociedade que, de fato, usufrui de todas as benesses do “Contrato Social”.