O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira

Enviada em 04/10/2021

Na obra “Depois daquela viagem”, a escritora Valéria Polizzi revela uma trajetória de discriminação e exclusão após ser diagnosticada como portadora do vírus HIV. Fora do universo literário, percebe-se que o estigma associado à soropositividade é uma problemática vigente no Brasil. Essa rotulação é resultado do preconceito e da superficialidade educacional no país.

Em primeira análise, é válido ressaltar o papel do preconceito para a estigmatização do vírus HIV na sociedade brasileira. Segundo o filósofo Voltaire, a preconcepção é resultado de uma formação de opinião sem conhecimento prévio, ou seja, cria estereótipos sociais. Sob essa perspectiva, a escassez de entendimento em relação aos processos da soropositividade, desde as formas de contágio até o tratamento com antirretrovirais, potencializa o estigma da população infectada. Esses indivíduos, com frequência, por causa da infecção, são relacionados à promiscuidade, irresponsabilidade e homossexualidade, o que resulta em discriminação e marginalização dessa população.

Outrossim, a superficialidade do processo educacional brasileiro reforça o estigma associado ao vírus HIV. De acordo com o pedagogo Paulo Freire, a educação, no Brasil, acontece de forma burguesa e depositora, isto é, o aluno é visto como receptor dócil, um depósito de informações, as quais, na maioria das vezes, estão desconexas da realidade. Dessa forma, o excesso de conhecimentos técnicos, como regras gramaticais e cálculos matemáticos, aliado à carência de discussões sobre temas sociais, como a soropositividade, causam uma economia psíquica nos indivíduos, os quais passam a reproduzir estigmas comumente aceitos socialmente, como a ideia de impossibilidade de conviver e se relacionar com pessoas infectadas.

Em vista disso, a fim de diminuir o estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira, é dever do Estado, aliado aos governos estaduais e à mídia, elaborar uma campanha publicitária sobre como se dá e quais as perspectivas para a vida pós-infecção, com a finalidade de desmistificar e diminuir o preconceito com relação à soropositividade. Essa ação deverá ser feita através de comerciais de TV e exposições em outdoors e praças de eventos em shoppings. Ademais, cabe ao Ministério da Educação propor uma discussão semanal de temas sociais nas escolas públicas e privadas do país. Essas conversas serão mediadas por ativistas, psicopedagogos e convidados no intuito de informar e conscientizar a população sobre assuntos relevantes para a harmonia civil, dentre eles, os processos pré e pós a contração do HIV, bem como a aparição da AIDS. Esses diálogos deverão ser abertos ao público, com o objetivo de alcançar a quantidade máxima de pessoas. Com isso, será possível transformar a realidade das “Valérias” do Brasil.