O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira

Enviada em 01/10/2021

O cantor e compositor brasileiro Cazuza protagonizou, na década de 80, uma das maiores campanhas de conscientização em relação à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no Brasil, expondo sua situação na capa da famosa Revista Veja de 1989. Apesar do esforço do artista,  o estigma associado ao vírus HIV ainda se faz presente no corpo social atual e deve ser combatido com o fito de estabelecer a convivência harmônica da sociedade. Para isso, é necessário postular que a estigmatização acontece principalmente pela falta de informação sobre as formas de transmissão da doença, o que constrói e dissemina o preconceito para com os indivíduos acometidos.

Cabe ressaltar, em primeira análise, que os primeiros casos de HIV surgiram em um contexto de difícil acesso à informação, o que contribuiu veementemente para a construção do estigma que perdura até hoje. Entretanto, na realidade atual, a falta de políticas públicas eficientes para a propagação de informação de qualidade sobre as formas de contágio e a vida das pessoas infectadas é a principal barreira para o desenrijecimento do entrave, assim como afirmado pelo infectologista Alexandre Naime Barbosa. Sob tal óptica, conclui-se que o tratamento existente para a AIDS é eficaz e pode fornecer qualidade de vida aos soropositivos para o vírus, porém, enquanto o conhecimento sobre a doença não for suficientemente compartilhado, a estigmatização continuará viva na sociedade brasileira.

Ademais, é factível afirmar que a exclusão social e o preconceito são tão danosos quanto os sintomas físicos causados pelo vírus HIV, e, nesse sentido, o estigma associado ao vírus pode ser citado como fonte-mor dos óbices supracitados. Sob esse viés, dados de uma entrevista realizada com indivíduos soropositivos pela Agência Brasil ilustram que 41% dos entrevistados já sofreu com o preconceito da própria família. Dessa forma, percebe-se que, embasada na desinformação, a discriminação dos acometidos pela infecção, por vezes, sobrepõe-se a própria existência do indivíduo, o que provoca a desumanização e reafirma o estigma que está associado à AIDS na sociedade brasileira. Em suma, hoje, a falta de dignidade da vida dos soropositivos é o sintoma mais dorido da doença.

Urge, portanto, a tomada de ações por parte do Estado com o intento de esmaecer a estigmatização vivida pelos portadores do HIV. Então, cabe ao Ministério da Saúde, como responsável pelo bem-estar físico e psicológico da população, a instituição de medidas de disseminação de conteúdo de qualidade sobre a doença e a situação real dos enfermos, utilizando, por exemplo, palestras que versem sobre a necessidade de inclusão social e extinção do preconceito. Isto posto, o estigma será diminuído por intermédio do acesso ao conhecimento e os prejulgamentos serão cessados, o que culminará no fim da luta iniciada por Cazuza para que, como cantava o artista, o dia nasça feliz.