O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira
Enviada em 30/10/2021
No livro “Humanidade”, Rutger Bregman discorre como a agricultura e o sedentarismo criaram condi-ções para que, além do crescimento vertiginoso da população, doenças surgissem devido ao contato escuso entre humanos e animais. Desde então, alguns estigmas foram associadas ao contágio e à transmissão de doenças, com foco na AIDS, fenômeno recente e mal compreendido na sociedade brasi-leira. Em suma, o preconceito associado ao vírus HIV é acarretado por uma cultura de repressão sexual e é muito prejudicial à sociedade como um todo, devido ao tabu ao redor da questão sanitária.
Nessa conjuntura, a questão da transmissão e do tratamento do vírus da AIDS ainda é envolto por questões morais (por ser uma doença adquirida, geralmente, pelo contato sexual) em uma sociedade altamente religiosa e influenciada por uma Europa que não superou preconceitos de séculos de influência da Inquisição, como mostra o livro “A origem do mundo”, de Liv Stromquist. Assim, como argumentou Michel Foucault, a repressão sexual remonta ao século XVII e influencia a moralidade atual, fazendo com que mitos e tabus sobre a sexualidade continuem intactos, principalmente contra quem não se encaixa nos padrões socialmente aceitos de cada época. Nesse sentido, a tendência é de que os preconceitos e o número de contágios com infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) aumentem, endossando pressões psicológicas e sociais desnecessárias aos imunodeficientes.
Outrossim, esse cenário de aversão e reprimendas implícitas é relatado por aidéticos, desde o serviço prestado por profissionais de saúde até o tratamento dado por familiares, todos com uma carga enorme de julgamento e ignorância. Todavia, essa cirscunstância infortuna dificulta deliberadamente uma vida tranquila e de cuidados necessários que o condicionado teria, caso não tivesse de enfrentar o rótulo de ser “o doente” nos lugares, com quem muitas pessoas evitam contato e associação como podem. Porém, como o controle e a erradicação de diversas outras doenças mal compreendidas, tal qual a varíola, que motivou uma revolta terrível no Rio de Janeiro, acarretada pela desinformação popular, a AIDS ainda é um infortúnio moral muito mais que técnico na atualidade.
Portanto, com base nos argumentos citados, compete ao governo, em parceria com a mídia, eliminar o germe da desinformação com relação à AIDS, de modo a alcançar, com isso, uma vida digna aos infec-tados e a melhorar a questão sanitária associada ao contágio. Isso pode ser feito por meio de cartilhas educativas em escolas, universidades e em campanhas midiáticas que exprimam todos os conceitos básicos de prevenção, contaminação e tratamento do HIV, com um debate menos apaixonado sobre o estigma associado aos imunodeficientes, visando, a curto prazo, possibilitar uma vida física saudável e, a longo, um acolhimento social dotado de entendimento e compaixão para com os condicionados.