O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira

Enviada em 22/10/2021

A longa-metragem brasileira “Carandiru” retrata a história de um presídio brasileiro nos anos 90 e expõe as repercussões da epidemia da AIDS entre os presidiários., inclusive os preconceitos relacionados à doença. Hodiernamente, apesar dos avanços científicos e medicinais, o vírus da AIDS, o HIV, ainda infecta milhares de pessoas anualmente. Esse cenário, por sua vez, decorre do estigma associado ao HIV na sociedade brasileira, e está interligado às ideias preconceituosas presentes no Brasil e à falta de informação acerca dessa infecção viral,  o que materializa as cenas de “Carandiru”.

Primeiramente, deve-se analisar as discriminações existentes para com as pessoas infectadas com o vírus do HIV. De acordo com o pensador checo Vilém Flusser, há uma equivalência entre a linguagem e a realidade, de modo que falantes de uma língua são transformados por ela. Dessa forma, nota-se que a AIDS, por se tratar de uma infecção sexualmente transmissível, foi relacionada com os valores conservadores da sociedade brasileira, na qual termos ligados às práticas sexuais são tratados com pudor. Devido a isso, o HIV é estigmatizado no Brasil, e desconstruir essas ideias depende de uma mudança da linguagem utilizada pelos brasileiros, a fim de superar o caráter pejorativo presente nela.

Além disso, pode-se vincular o estigma aliado ao vírus do HIV à falta de conhecimento da população sobre a prevenção e sobre o tratamento da doença. Embora a educação sexual conste na Base Nacional Curricular Comum, é notável que essas ementas não são aplicadas empiricamente, seja por falta de verbas para incluir profissionais capazes de abordar os assuntos corretamente, seja pelas políticas conservadoras que inibem essas trocas de conhecimento. Desse modo, não há uma universalização do saber que o Sistema Único de Saúde disponibiliza os contraceptivos de barreira e o tratamento adequado para permitir que pessoas não se infectem com o vírus e que sejam tratadas quando infectadas por ele, garantindo uma qualidade de vida com esses medicamentos. Assim sendo, sem o conhecimento, o medo e o preconceito acerca do HIV são perpetuados.

Urgem, portanto, medidas capazes de desconstruírem o estigma relacionado ao HIV. Para isso, cabe ao Ministério da Educação - órgão responsável pelo despacho de assuntos referentes à educação - complementar e especificar a Base Nacional Curricular Comum, em conjunto com psicólogos e pedagogos especializados em educação sexual, por meio de um projeto de lei, a fim de garantir a aplicabilidade desses conhecimentos e reduzir o número de novas infecções no Brasil. Com isso, será possível, paulatinamente, que o estigma associado ao vírus seja vencido e que a realidade exposta em “Carandiru” não se repita.