O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira

Enviada em 26/10/2021

O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira

A maioria das pessoas que vivem com HIV no Brasil já passou por pelo menos alguma situação de discriminação ao longo de suas vidas. É o que indica um estudo feito com aproximadamente 1.780 pessoas, em sete capitais brasileiras, entre abril e agosto de 2019. Os dados fazem parte do Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV – Brasil, realizado pela primeira vez no país. De acordo com a pesquisa, 64,1% das pessoas entrevistadas já́ sofreram alguma forma de estigma ou discriminação pelo fato de viverem com HIV ou com AIDS.

Em sua maioria, as quase 1.800 pessoas que participaram do Índice de Estigma no Brasil são negras e vivem com HIV, em média, há dez anos. Muitas das conseqüências perversas da estigmatização de pessoas ou grupos específicos envolvem a discriminação nos espaços públicos e instituições privadas, gerando hostilidade, segregação, exclusão e auto-exclusão daqueles que têm sua condição sorológica revelada. Embora o estigma e a epidemia sejam de abrangência mundial, há formas específicas e contextualizadas de manifestações discriminatórias, de natureza individual ou coletiva.1-3,6,10,11,cEm alguns contextos essa discriminação se expressa por meio de leis que tratam da testagem compulsória para populações específicas, os chamados grupos de risco. Ao analisar o que pensam os brasileiros sobre a convivência com portadores do HIV, a obrigatoriedade do teste para grupos populacionais específicos e a obrigatoriedade do aborto para mulheres grávidas soropositivas, abre-se a possibilidade de explorar o grau de intenção de discriminação aos portadores nas duas pesquisas referidas.

O medo de contrair HIV por meio do contato social com pessoas infectadas pelo vírus tem sido constantemente relatado em várias pesquisas. Não há respostas simples para o enfrentamento e a eliminação do estigma e da discriminação, o que exige juntar esforços para a compreensão e no delineamento de ações mais eficazes e de acordo com os contextos culturais específicos. É fundamental deixar de pensar sobre a Aids como a doença do outro. Assim como é imprescindível que o Estado implemente políticas que assegurem o acesso eqüitativo de homens e mulheres à prevenção, atenção e tratamento digno em todas as esferas públicas.