O estigma associado ao vírus HIV na sociedade brasileira

Enviada em 30/10/2021

José Saramago, em Ensaio sobre a Cegueira, trouxe à sua literatura os meandros e as veredas da alma e do comportamento humano - cruéis, ignorantes e individualistas. Para além dessas páginas, o esfacelamento moral e a maldade fazem-se regra e, nesse contexto de opressão, inadmissíveis práticas provenientes desse cenário - como o estigma associado ao vírus HIV no Brasil- erguem-se como resultado desse panorama. Com efeito, esse péssimo quadro fomenta-se pelo forte preconceito social contra a  doença e pela ausência de políticas públicas eficazes para reduzir a estigmatização no país.

Em uma primeira perspectiva, a presença de discursos preconceituosos contra os portadores de HIV mostra-se como subproduto da compactuação da sociedade a favor da aversão dessa minoria afetada. Isso porque, o grande estigma associado à ignorância dos métodos de transmissão da doença viral, induz o distanciamento de expressiva parcela da população, a fim de não se contaminarem, uma vez que, em tese, as pessoas desejam evitar o contágio, o que agrava a intolerância e afasta os portadores do HIV do convívio social. Segundo o boletim epidemiológico de 2020, cerca de 920 mil pessoas vivem com o HIV no Brasil e 94% das pessoas em tratamento não transmitem a doença. Apesar desses dados, se observa uma considerável repulsa da sociedade aos doentes, mesmo aqueles sem carga viral expressiva detectável, o que revela, em essência, o caráter preconceituoso de muitos brasileiros.

Ademais, vale ainda ressaltar que a secundarização Estatal da pauta de combate ao HIV no Brasil ergue-se como facilitador da perpetuação da problemática no cotidiano. Essa correlação pode ser estabelecida em decorrência das recentes alterações nas pastas públicas relacionadas com a AIDS. Em 2020, o governo desmontou o programa brasileiro de combate ao HIV, o qual era referência internacional e auxiliava nas pesquisas científicas que detectavam a doença, acompanhavam os pacientes e ajudavam no tratamento. Essa caótica conjuntura política, torna, o Brasil, o palco perfeito para crescimento do estigma, visto que nem mesmo os membros do governo auxiliam no combate a esse mal. Dessa forma, o país continua refém de práticas desumanas contra essa minoria portadora.

Torna-se evidente, portanto, que a estigmatização associada ao vírus HIV na sociedade brasileira faz-se resultado do preconceito e da redução de apoio no enfrentamento da doença. Para reverter esse quadro, é preciso que o Poder Executivo- por intermédio do Ministério da Saúde- faça, em parceria com a grande mídia, a criação do projeto “HIV não é  fim”, no qual seja estimulado o combate aos estereótipos relacionados ao HIV e o reinvestimento no programa brasileiro. Isso deve ocorrer, também, por meio de textos que reduzam o preconceito contra o HIV, a fim de diminuir o estigma. Espera-se, assim, que o comportamento ilustrado por Saramago pertença apenas ao plano literário.