O impacto da tecnologia na educação
Enviada em 29/10/2021
“Nada é orgânico / É tudo programado”, canta Pitty. De fato, no milênio digital, espaços sociais que antes eram vistos como locais de transmissão de tradições e valores de cada povo estão, cada vez mais, tendo que inovar-se para acompanhar as mudanças tecnológicas da geração atual. Aliás, a pandemia do coronavirus acelerou enormemente esse processo, obrigando escolas e outras instituições a adotar artefatos às pressas e sem devido planejamento. Cabe, portanto, analisar que novo papel a educação deve assumir diante dessa conjuntura e os obstáculos para tal.
Mormente, o ensino formal contemporâneo deve concentrar-se em promover o consumo crítico da mídia virtual. Acerca disso, relaciona-se o experimento de Albert Bandura, psicólogo canadense que demonstrou que crianças reproduzem comportamentos violentos de obras multimídia sem reflexão. Com efeito, os pequenos da hodiernidade são bombardeados noite e dia por vídeos e jogos que nem sempre passam pelo devido escrutínio dos pais. Tal indústria do entretenimento, diferentemente da TV e do cinema tradicionais, não segue regulamentações tão rígidas a respeito de censura e propaganda. Por exemplo, “youtubers” como Luccas Neto ganham a vida produzindo vídeos sobre brinquedos e jogos infantis, que é um tipo de publicidade proibido na televisão aberta. Logo, recai sobre a educação o objetivo de contrapor, em sala, esse conteúdo com produções mais socialmente frutíferas.
Outrossim, essa nova missão do ensino é obstruída pela desigualdade ao acesso à tecnologia. Sobre isso, dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que há, no Brasil, mais que o dobro de aparelhos celulares em relação aos habitantes. No entanto, a conclusão de que isso, de algum modo, favorece a democratização da educação é falsa, pois esse contingente de dispositivos está nas mãos de poucos. Desse modo, não é possível cobrar a adoção ampla de ferramentas de instrução digitais, como o Classroom, enquanto não houver auxílio governamental a esse respeito. Tal assistência não deve limitar-se às máquinas físicas, mas deve incluir também expansão de sinal de 5G, por exemplo.
Destarte, explorados os deveres e os empecilhos à educação no milênio digital, é papel do Ministério da Educação, por meio de uma revisão da Base Nacional Comum Curricular, prever ao ensino básico a obrigatoriedade de abordar os temas da violência e do consumo, mais precisamente, através de jogos e vídeos educativos, visando a evitar a reprodução de comportamentos impulsivos inspirados no conteúdo cibernético. Por fim, também é dever do Ministério da Infraestrutura, em conjunto com instâncias do Executivo municipal, estabelecer “LAN houses” e torres de 5G em áreas remotas da região Norte, mediante licitações com empresas privadas, exclusivas para uso estudantil, e, assim, democratizar o uso da educação, misturando “orgânico” e “programado” em um ensino “biônico”.