O impacto das desigualdades sociais nas desigualdades escolares
Enviada em 05/11/2021
De acordo com o educador e professor Paulo Freire, a estrutura educacional brasileira é vista como perpetuadora de desigualdades desde os tempos coloniais. Sob tal perspectiva, a conjuntura social do país pode ser analisada como o reflexo da dificuldade do acesso à educação. Nesse contexto, percebe-se a configuração de graves problemas de contornos específicos, em virtude da falta de acesso ao ensino de qualidade e da pressão econômica sobre alunos de baixa renda.
Nessa ótica, o economista indiano Amartya Sen indica que, no século XXI, não se pode haver autonomia econômica sem formação intelectual. O que exemplifica a importância da educação para o crescimento econômico da sociedade. Contudo, a estrutura de ensino no Brasil impacta de forma negativa a formação dos estudantes. Tal resultado se dá por conta da carga horária exígua e de currículos dissonantes da realidade sociocultural dos alunos. Nessa perspectiva, percebe-se um ensino bastante mecanizado, enquanto a constituição de cidadãos é colocada em segundo plano. Essa estrutura leva à formação de jovens sem consciência política, o que se reflete nas desigualdades sociais e intelectuais.
Além disso, as pressões econômicas sofridas por alunos de baixa renda influenciam nos elevados índices de abstenção e abandono escolar. A vida do escritor brasileiro Lima Barreto é exemplo disso, pois, de origem humilde, foi obrigado a abandonar o curso de Engenharia para cuidar de familiares. Contudo tal biografia não é exclusiva desse autor – ela se repete diariamente no Brasil. Em todos os rincões do país, jovens e adultos são economicamente pressionados a abandonarem os estudos para se dedicarem ao mercado de trabalho. Dessa forma, depreende-se que a falta de condições financeiras favorece a manutenção das desigualdades em diversas esferas da sociedade. Assim, fecha-se um ciclo prejudicial ao país como um todo. Nesse diapasão, o jovem tende a não estudar por precisar trabalhar e, posteriormente, o mesmo adulto já não consegue bons empregos porque não obteve boa formação.
Portanto, é necessária a atuação do Governo Federal, por meio do Ministério da Educação, na criação de um programa educacional voltado para a formação cidadã dos alunos de baixa renda. Mais precisamente, esse programa deverá conter uma bolsa de estudos e uma grade curricular humanística e de maior carga horária. Tal medida visa romper o ciclo da estrutura educacional brasileira, pois age em duas direções: econômica e pedagógica. Pela dimensão econômica, suprime-se a pressão financeira por meio do pagamento de auxílios. Já pela outra dimensão, um novo currículo escolar pode atrair mais jovens para os caminhos da formação intelectual.