O impacto das desigualdades sociais nas desigualdades escolares

Enviada em 18/11/2021

No livro “Capitães da Areia”, Jorge Amado retrata a história de crianças e adolescentes abandonados que viviam nas ruas de Salvador. Na obra, por conta de sua condição financeira e social, as personagens não conseguiam frequentar a escola e, por isso, a única fonte de conhecimento que tinham eram as suas vivências diárias. De maneira análoga, muitos indivíduos dessa faixa etária também enfrentam dificuldades educacionais. Nesse âmbito, o problema abrange não somente aqueles que vivem nas ruas, mas também pessoas mais pobres que não têm acesso à educação íntegra e de qualidade. Tal problemática persiste pela negligência governamental e pela desigualdade.

Em primeiro lugar, é necessário destacar o descaso do governo com as camadas marginalizadas da sociedade. Nesse viés, constata-se a teoria defendida por Karl Marx de que, no capitalismo, tudo passa a ser mercadoria, já que muitos governantes veem a educação apenas como meio de lucrar e promover uma boa imagem de sua gestão. Um exemplo disso foi a presidência de Juscelino Kubitschek, na qual, com a tentativa de fazer o Brasil crescer 50 anos em 5, houve o planejamento de áreas centrais, como a capital Brasília, mas as populações mais pobres e a periferia não receberam os investimentos de que precisavam. Com isso, a discrepância entre as diferentes parcelas populacionais tornou-se ainda maior, incluindo o questão educacional, visto que escolas públicas de qualidade não foram criadas.

Além disso, o contraste de oportunidades recebidas também corrobora para o fortalecimento do problema. Sob essa ótica, segundo dados do Ministério da Educação, apenas um quinto dos alunos brasileiros estudam em instituições privadas de ensino, sendo que essas são as que apresentam maior qualidade, enquanto nas públicas são salientados problemas que afetam o aprendizado, como falta de materiais necessários, de professores e de estrutura adequada. Nesse contexto, o filme brasileiro “Que Horas Ela Volta?” mostra a dificuldade de Jéssica, filha de uma empregada doméstica, para que, sendo estudante de escola pública, consiga passar no vestibular.

Observa-se, portanto, que as razões apresentadas fortalecem o impacto das condições econômicas e sociais nas desigualdades educacionais. Destarte, é preciso que o Governo Federal, no papel do Ministério da Educação, combata tais discrepâncias para que todos tenham as mesmas oportunidades. Isso deve ser feito por meio da contratação de professores qualificados, além do investimento na oferta de materiais de qualidade, que serão usados tanto por todos na escola pública, quanto individualmente pelos alunos em suas casas, a fim de criar uma sociedade mais igualitária e justa. Somente com essas medidas, será possível melhorar o acesso ao aprendizado de excelência no país e restringir a situação vista em “Capitães da Areia” apenas ao plano da ficção.