O impacto das desigualdades sociais nas desigualdades escolares

Enviada em 30/08/2022

A pintura “Abapuru”, de Tarsila do Amaral, apresenta a desproporcionalidade corporal de um indivíduo, com um grande corpo e uma cabeça pequena. De forma análoga à obra, os traços desiguais do personagem podem representar a disparidade na estrutura educacional brasileira, algo que coloca em questão o impacto das desigualdades sociais nas desigualdades escolares. Logo, tanto as causas quanto as consequências de tal fenômeno merecem um olhar crítico.

À primeira vista, é válido ressaltar o descaso governamental como principal alicerce de tal problemática. Nesse sentido, conforme o sociólogo Nick Couldry, a compreensão de diferentes vozes e vivências é imprescindível para a instauração de uma sociedade democrática. Entretanto, apesar da necessidade de entendimento de todo o cenário social e individual o qual estão inseridos os estudantes de escolas públicas, é nítida a despreocupação política em levar em conta as dificuldades sofridas por alunos pobres no caminho para a formação acadêmica, bem como possibilitar meios para que estes possuam uma equidade com estudantes de redes privadas de ensino, e, portanto, as mesmas oportunidades. Logo, essa ineficácia promove um abismo entre jovens desassistidos de suas garantias sociais e sua emancipação financeira.

Outrossim, nota-se as desigualdades escolares como promotoras da reverberação da pobreza. Dessa forma, a obra cinematográfica “Mãos Talentosas” narra a jornada da formação de um neurocirurgião que teve a educação como forma de resistência e saída de pobreza. Todavia, o mesmo destino do médico não é conquistado por milhares de alunos, dado que como mostra a pesquisa realizada pela Revista Exame, o índice de reprovação e abandono escolar é 10 vezes mais alto em instituições públicas do que em particulares, haja vista que a falta de incentivo para permanência escolar e instabilidade financeira desses estudantes faz com que muitos tenham que abandonar o processo de aprendizagem para começar a trabalhar. Desse modo, tal ciclo coloca brasileiros na condição de subcidadania e priva-os ao acesso à educação.