O impacto dos influenciadores digitais na formação dos jovens

Enviada em 29/07/2020

No episódio “Queda Livre”, da série norte-americana Black Mirror, é narrado o cotidiano de Lacie - uma jovem que sonha em se tornar “influencer”. Nesse sentido, em busca de reconhecimento e fama nas redes sociais, a jovem compra e divulga uma marca de biscoitos e um tipo de café que não gosta, o que influencia seus seguidores a fazer o mesmo. Embora seja uma ficção, a realidade de Lacie tem se tornado cada vez mais comum, uma vez que o comportamento de influenciadores digitais molda e aliena a personalidade de parte da população - especialmente os jovens. Nesse preocupante contexto, é necessário compreender como a quantidade excessiva de propagandas e a busca por perfeição corroboram a manipulação de alguns adolescentes e a distúrbios de imagem e depressão.

Em primeiro lugar, a disseminação exagerada de publicidade por famosos, nas redes sociais, é uma questão crucial ao analisar o problema. Segundo os filósofos Adorno e Horkheimer, da Escola de Frankfurt, a transmissão de propagandas em massa tem o objetivo de criar uma sociedade de consumo padronizada, cujo aspecto marcante é a venda de produtos para necessidades iguais. Dessa forma, grandes empresas utilizam influenciadores digitais como um novo método de marketing, no qual oferecem não somente um produto, mas também um padrão de vida ideal, o que influencia o consumo - algo extremamente vantajoso para o capitalismo. Assim, “influencers” moldam - mesmo que indiretamente - as formas de agir e de pensar de parte dos jovens, o que acarreta a alienação e a nociva diminuição do senso crítico.

Além disso, a necessidade de aparentar perfeição contribui para a persistência do impasse. No livro “Sociedade do Espetáculo”, do sociólogo Guy Debord, é explicitada sua teoria de que todas as pessoas vivem suas vidas como se fosse um espetáculo, tentando alcançar a perfeição e oferecer o melhor “show”. Nesse viés, tal teoria foi agravada pela globalização, uma vez que, por conta das redes sociais, influenciadores digitais divulgam um estilo de vida inatingível e um corpo “ideal”. Por conseguinte, indivíduos que destoam do padrão são excluídos e, acabam por desenvolver distúrbios de imagem e depressão, o que evidencia o preocupante quadro atual para a formação dos jovens.

Portanto, além de promover campanhas publicitárias de conscientização contra o consumo excessivo, o Estado e o Ministério Público devem, em parceria com o Ministério da Educação, desenvolver projetos e debates em escolas e faculdades a fim de aumentar o senso crítico dos jovens quanto ao uso das redes sociais. Isso deve ocorrer por meio de palestras com profissionais de marketing para que mais adolescentes conheçam os riscos do bombardeamento exagerado de propagandas por influenciadores digitais. Somente assim, os jovens brasileiros se afastarão da realidade de Lacie.