O impacto dos influenciadores digitais na formação dos jovens
Enviada em 06/10/2020
Jean-Jacques Rousseau, filósofo iluminista, afirma que o progresso de uma sociedade está intimamente ligado à autonomia social dos indivíduos que a compõem. No entanto, no panorama contemporâneo, os efeitos do alcance dos chamados “influenciadores digitais” vai de encontro à máxima de Rousseau, quando poucas pessoas com milhões de “seguidores” e grande poder de influência põem à prova a própria autonomia do indivíduo. Lidar com a responsabilidade advinda do poder de influência desses personagens sobre tantas pessoas é um dever não só deles, mas também um dos grandes desafios da sociedade digital ora em curso.
É notório que os influenciadores digitais promoveram uma revolução nas estratégias de marketing. Não à toa, muitas empresas investem pesado nessas pessoas fornecendo produtos para divulgação, além de ganhos financeiros consideráveis. A propaganda se dá principalmente pelo estilo de vida consumista, com direito a viagens e os produtos mais recentes. A mensagem é discreta, mas não poupa nem mesmo as crianças, que acessam esse mundo tentador cada vez mais cedo. Não à toa, os influenciadores digitais mais bem-sucedidos são justamente os que veiculam conteúdo infantil, como análises de brinquedos e jogos de videogames… para o desespero da conta bancária dos pais.
Porém, é notório que quase sempre, o alcance de um influenciador muitas vezes vai muito além do conteúdo veiculado. Exemplo disso é o famoso influenciador digital Felipe Neto, que ao conceder entrevista ao programa Roda Viva, rendeu recorde de audiência, bem como foi assunto por semanas nos mais diversos veículos de mídia. O entrevistado deu a sua visão sobre o Governo, o enfrentamento da Pandemia e até questões ambientais. Fala-se até em uma candidatura para a Presidência da República, e as chances de vitória nas urnas são significativas. Afinal, boa parte das crianças e adolescentes que foram seu público-alvo por anos, poderão estar crescidas e aptas a votar em 2022.
Portanto, faz-se necessário que a sociedade e o Poder Público atentem-se para o poder e responsabilidade dessas pessoas, devendo o Estado, através do Ministério das Comunicações, empreender ações midiáticas de forma clara e objetiva, alertando o cidadão sobre o funcionamento da dinâmica das relações comerciais entre empresas e influenciadores digitais, bem como incentivando esses atores sociais a se engajarem em causas mais socialmente construtivas, para além dos seus contratos comerciais. Ato contínuo, deve o Ministério da Educação investir em campanhas e palestras nas escolas, de forma a informar o público infanto-juvenil e formar cidadãos plenamente críticos e conhecedores das armadilhas do consumismo desregrado, já responsável por uma verdadeira legião de endividados. Decerto, informação é poder, e equilíbrio é a chave.