O impacto dos ultraprocessados no padrão alimentar brasileiro.
Enviada em 20/10/2019
A “modernidade líquida’’, tese do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é caracterizada como um conjunto de aceleradas e fluidas relações sociais que espelham a realidade cotidiana. Nesse sentido, o rápido crescimento da presença dos ultraprocessados nos hábitos alimentares dos brasileiros é, sem dúvida, um fator que indica essa ‘’liquidez’’. Assim, o impacto da publicidade, a desvalorização de práticas naturais desde a infância e a vida social agitada dos indivíduos são grandes responsáveis por formentar essa problemática.
Nesse contexto, parte desse panorama mundial é reflexo de mudanças alimentares que envolvem a substituição de alimentos naturais e minimamente processados por alimentos industrializados prontos para o consumo, ricos em sódio e açúcar. Essa realidade contribui para a superlotação do sistema público de saúde, uma vez que aumenta os casos de obesidade, diabetes, doenças do coração, câncer e hipertensão arterial. Justo por isso, é preocupante a falta de medidas de prevenção e conscientização por parte dos governos, o que atesta o pensamento do importante oncologista Drauzio Varella no qual defende que não é função do Estado proteger o cidadão do mal que causa a si próprio, mas é seu dever defendê-lo do que possam fazer contra ele.
Por outro lado, é fato que o impacto da publicidade dos ultraprocessados desde a infância e a falta de orientação da família e da escola para o incentivo à hábitos mais naturais contribui para a disseminação de uma grave cultura alimentar imediatista. Assim, o filósofo sul-coreano Byong-Chul Han argumenta que o excesso de estímulos desencadeia uma sociedade do cansaço, no qual culmina nas mais diversas patologias - físicas e psicológicas, o que é notável diante dos maus hábitos alimentares dos jovens e adolescentes diante da constante necessidade de uma alta produtividade. Por esse motivo, reverter essa custosa situação requer a atuação conjunta de diversos setores da sociedade.
Portanto, a princípio, para valorizar desde a infância uma boa cultura alimentar, é importante que o Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Educação atue com projetos que visem disseminar bons hábitos alimentares nas crianças e adolescentes do país, o que pode ser feito com projetos e palestras nas escolas públicas e privadas e investimentos para introduzir alimentos saudáveis nas merendas e cantinas das escolas. Ao mesmo tempo, é crucial que diversos atores da sociedade, como influenciados digitais, empresas privadas e ONGs atuem com a promoção de projetos de conscientização nas mídias sociais e tradicionais com o objetivo de alertar a população acerca dos perigos da má alimentação e a necessidade de mudança. Assim, somente com educação e mudança comportamental será possível reverter essa realidade.