O impacto dos ultraprocessados no padrão alimentar brasileiro.
Enviada em 20/07/2020
O binômio urbanização/industrialização provocado pela Revolução Industrial promoveu profundas transformações sociais. Nesse sentido, o “modus vivendi” de comensalidade de nossos antepassados marcado por uma alimentação natural foi substituído pela praticidade dos ultraprocessados. Todavia, os alimentos ultraprocessados vêm causando sérios impactos no padrão alimentar brasileiro, seja pela perca de variantes alimentícias regionais e históricas, seja pelo surgimento de doenças associadas.
Primeiramente, é notável que o consumo dos alimentos ultraprocessados promoveu uma dissolução das culinárias regionais e históricas. Isso deve-se, sobretudo, ao capitalismo desenfreado, que não permite espaço para culturas tradicionais ou históricas. Assim, faz sentido o pensamento de Karl Max em seu manifesto comunista: “Que como Deus, o capitalismo cria um mundo e uma forma de vida a sua imagem e semelhança”, de tal modo que não consumir estes alimentos significa um afastamento aos “padrões” de consumo modernos. Por consequência, a alimentação brasileira (fruto de uma miscigenação das culinárias portuguesas, indígenas e africanas), desintegra-se, deixando o país em uma “bolha de fast foods”, além de perder a “alimentação tradicional” que é um patrimônio cultural.
Outrossim, é perceptível que a mudança para hábitos alimentares ocidentalizados explica a “explosão” de doenças associadas. Tal viés, deve-se ao perfil de nutrientes presentes nos ultraprocessados – mais gordura, açúcar e sódio – e pobre em vitaminas e minerais, o que gera a atual pandemia de obesidade. Nesse sentido, nota-se que o impacto dos ultraprocessados é também no campo da saúde pública, uma vez que a obesidade é um fator de risco para doenças cardiovasculares, diabetes e câncer, doenças crônicas não transmissíveis responsáveis por altas taxas de mortalidade. Desse modo, nunca foi tão necessário o pensamento de Hipócrates: “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio". Longe “consciência hipocrática” e de forma irônica, a sociedade atual busca nos alimentos prazer e nutrição, mas encontrará moléstias.
Logo, faz-se urgente medidas para conter o avanço dos ultraprocessados no padrão alimentar brasileiro. De início, cabe ao Governo a criação de um programa de “Resgate e fortalecimento da alimentação regional”, que como tal deve exultar através de oficinas, atividades e palestras a importância da alimentação brasileira para o pais e a sociedade. Por outro lado, cabe ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária regulamentar o marketing desses alimentos, vetando aquelas propagandas e canais com conteúdo influenciador. Finalmente, cabe ao Ministério da Saúde massificar campanhas de conscientização, através de mídias (rádio, televisão) e manuais que tragam conteúdo educativo sobre os riscos dos ultraprocessados, a fim de gerar á “consciência hipocrática”.