O impacto dos ultraprocessados no padrão alimentar brasileiro.

Enviada em 10/05/2021

Originalmente utilizada para designar a vontade do público por uma repetição da apresentação artística, a palavra ‘bis’ é conhecida pela maioria dos brasileiros. Entretanto, na contemporaneidade, seu significado prevalecente é o de bolacha recheada de chocolate. Esse é um exemplo da força dos chamados alimentos ultraprocessados - aqueles sem origem natural - sobre a sociedade. O destaque desse tipo de refeição no padrão alimentar é um problema, uma vez que afeta o nível de desenvolvimento do país, além de refletir a submissão cultural brasileira.

Em primeira vista, é necessário considerar que a avaliação do Índice de Desenvolvimento Humano é inversamente proporcional ao consumo de ultraprocessados. Ou seja, a ingestão demasiada desse tipo de alimentos atrapalha a salubridade da população - segundo a nutricionista Renata Levy, eles estão associados a doenças como diabetes e hipertensão -, consequentemente, a nota do país na análise do IDH fica baixa - os três pilares do ranking global são renda, educação e saúde. Dessa forma, o Brasil tende a perder posições, saindo da linha dos 100 primeiros - de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, a pátria ocupava a 84° colocação em 2020 -, o que é ruim para a imagem internacional brasileira. Considerando sua influência global, essa queda pode gerar problemas ainda maiores para a diplomacia, como perda de credibilidade e recusa de acordos entre Estados.

Ademais, a problemática envolvendo alimentos industrializados é um reflexo da influência estadunidense sobre o Brasil. Haja vista que o gigante sul-americano é historicamente produtor agrícola, tendo no café e na cana-de-açúcar dois de seus maiores ciclos econômicos, espera-se que a dieta de sua população seja voltada para aquilo que é provido pela natureza. Entretanto, a forte ligação existente entre os Estados Unidos e tais comidas - como é possível conferir em Brooklin 99, série produzida pelo canal norteamericano NBC, na qual o personagem principal, Jake Peralta, alimenta-se essencialmente de ultraprocessados -, coloca em evidência o domínio que a cultura dos EUA exerce sobre a cultura brasileira. Nesse sentido, percebe-se uma tendência a privilegiar o do outro em detrimento do seu, o que é um entrave para o senso de patriotismo, resultando em uma maior dificuldade na busca por melhoras na realidade de sua nação.

Logo, faz-se necessária intervenção do Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Saúde, a fim de diminuir o consumo de ultraprocessados e amenizar seus impactos, tanto na saúde quanto na cultura. Os órgãos precisam promover aulas, oferecidas em escolas públicas, gratuitamente, aos sábados, por meio de palestras educativas com nutricionistas e outros profissionais das áreas envolvidas. Assim, espera-se que as pessoas deixem de pensar em ‘bis’ somente como comida.