O indígena brasileiro em foco na atualidade

Enviada em 08/07/2018

Retratados como heróis da pátria no romance “O Guarani” ou como heróis sem nenhum caráter na obra modernista “Macunaíma”, os povos indígenas foram constantemente referidos na literatura brasileira por autores como José de Alencar e Mário de Andrade. No entanto, seja de maneira a elevá-lo a um patamar de perfeição, seja rebaixando-o a um ser indolente, o índio sempre teve sua imagem associada a estereótipos pouco relacionados com sua verdadeira cultura. Hodiernamente, ainda pouco é falado sobre o acervo cultural desse povo e a figura indígena continua sendo julgada e negligenciada de modo a causar danos na qualidade de vida e na representatividade desses.

Nesse contexto, a visão estereotipada do índio apresenta raízes antigas e reflete no cenário atual. Dessa forma, é possível perceber que os primeiros cronistas, entre eles Pero de Magalhães Gândavo, mostram um grupo “sem fé, sem lei e sem rei”, revelando um pensamento etnocêntrico e preconceituoso que, apesar de arcaico, parece atemporal. Atualmente, essa concepção submete o índio a uma série de situações desumanas, visto que a identificação e a preocupação com esse grupo são quase inexistentes. Prova disso é que, levantamentos do Conselho Indigenista Missionário mostram que, do total de mortes infantis no Brasil, 55% são de índios, para mais, entre as mortes de indivíduos dessa etnia, mais de 15% ocorrem pela falta de acesso a serviços básicos de saúde.

Em segunda instância, por mais que apresentem uma formação heterogênea, os brasileiros ainda negligenciam a cultura daqueles que foram pioneiros na ocupação dessa terra. Nesse âmbito, pesquisas da Universidade Estadual de Campinas apontam que, das 1,5 mil línguas indígenas existentes no período colonial, restam apenas 181. Além disso, a pouca representatividade indigenista nas três esferas do poder e a abordagem insuficiente sobre a cultura indígena na educação regular corroboram para o desaparecimento de grande parte do acervo cultural desse grupo.

Urge, portanto, a adoção de medidas que solucionem o impasse. A priori, é imprescindível que haja a eleição de representantes indígenas no Congresso, para que decisões acerca da realidade dos índios sejam tomadas com o consentimento e aprovação daqueles que a conhecem. Outrossim, cabe ao Governo instituir políticas de prevenção e tratamento de doenças por meio da instalação de hospitais em áreas próximas a reservas indígenas, a fim de levar o atendimento gratuito aos indivíduos; ademais, é conveniente que sejam adotadas técnicas medicinais que unam os conhecimentos ocidentais às práticas de tratamento utilizada por pajés, com o fito de evoluir e alcançar cada vez mais indivíduos com os serviços de saúde. Quem sabe assim, por meio do reconhecimento do acervo cultural indígena, os estereótipos românticos e modernistas deem lugar a verdadeira imagem do índio brasileiro.