O indígena brasileiro em foco na atualidade
Enviada em 16/10/2018
Após três séculos de subordinação colonial e sob o contexto pós-independência, surge no Brasil o movimento do Romantismo, que buscava a afirmação de uma identidade nacional por meio da exaltação do índio. Contudo, a imagem retratada nas obras da geração de Gonçalves Dias estava intrinsecamente ligada aos padrões europeus e pouco associada à verdadeira cultura indígena. Nesse viés, o eurocentrismo e o menosprezo dessas etnias ainda podem ser observados no cenário atual, seja pelo desrespeito às suas terras, seja pelo descaso com a saúde desses indivíduos.
Primeiramente, cabe ressaltar que o desacato à figura indígena apresenta raízes antigas. Dessarte, é possível perceber que cronistas, como Pero de Magalhães Gândavo, descrevem o grupo como “sem fé, sem lei e sem rei”, de forma a revelar um pensamento etnocêntrico que apesar de arcaico parece atemporal. Assim, a marginalização da cultura daqueles que foram os pioneiros na ocupação do país os submete a situações de extrema dificuldade no que diz respeito à manutenção de seus costumes e espaços. Nesse cenário, destaca-se a questão das terras demarcadas como reservas indígenas que, segundo a Fundação Nacional do Índio, correspondiam a 12,5% do território nacional no ano de 2010. Entretanto, a busca por lucro, o avanço do setor agropecuário e das atividades madeireiras ocasionaram a destruição de 32% dessas áreas, segundo a mesma fonte.
Em segunda instância, assim como a negligência a esses povos ocasiona a extinção de suas terras, a qualidade de vida desses é reduzida devido ao mesmo fator. Nesse âmbito, o descaso no que tange ao acesso a práticas de prevenção e tratamento de doenças submeto o índio a situações desumanas. Prova disso é que, levantamentos do Conselho Indigenista Missionário mostram que do total de mortes infantis no Brasil, 55% são de índios, ademais, entre as mortes de indivíduos dessa etnia, 15% ocorrem pela falta de acesso a serviços básicos de saúde. Dessa maneira, tem-se justificado o pensamento de Cecília Meireles, de que já não se morre de velhice ou de acidente, mas de indiferença.
Urge, portanto, a adoção de medidas que incentivem a valorização do índio. Para tal, é conveniente que Poder Legislativo, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, elabore leis que garantam que as empresas que desrespeitarem os limites estabelecidos como reservas sejam responsáveis pelo reflorestamento dessas áreas e pelo pagamento de multas severas. Outrossim, o valor arrecadado por essas sanções deve ser utilizado pelo Governo a fim de instalar, em áreas próximas a terras indígenas, unidades de saúde que unam os conhecimentos médicos ocidentais às práticas de tratamento utilizadas por pajés, com o fito de universalizar o direito à prevenção. Assim, os estereótipos românticos darão lugar à verdadeira imagem do nativo brasileiro.