O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 25/11/2020

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), criada em 2010, no Brasil, é uma lei que propõe a redução dos resíduos gerados, sugerindo, para isso, a reciclagem e a destinação ambientalmente adequada aos rejeitos. Dentre os objetivos desse decreto está a eliminação dos lixões, que deveria ocorrer até 2014. Contudo, devido ao consumo irracional de muitos brasileiros e à logística capitalista da obsolência programada, na qual produtos, sobretudo, os eletroeletrônicos, são fabricados com curto prazo de funcionamento, a lei não teve a sua meta alcançada. Em razão disso, tem-se prejuízos socioambientais e perda de potencialidade do lixo. Assim, cabe ao governo investir em medidas que, além de reduzir a produção de resíduos, mostrem à população a importância do consumo consciente.

Nesse contexto, destaca-se a “sociedade do hiperconsumo” do filósofo Gilles Lipovetsky. Segundo Gilles, na atualidade, o consumo é associado à felicidade e, por isso, os indivíduos compram tanto. Analogamente, no Brasil, a mídia ao realizar propagandas em demasia, estimula o consumo excessivo como forma de se atingir o pleno bem-estar. Entretanto, a medida que se consome conforme o modelo capitalista, a quantia de lixo aumenta, já que a maioria dos indivíduos ao adquirir uma mercadoria, descarta inadequadamente a outra obsoleta. Isso gera malefícios socioambientais. Dentre os prejuízos evidenciam-se a contaminação do solo e do lençol freático pelo chorume, líquido advindo da decomposição da matéria orgânica, o que ocasiona perda do potencial agrícola, atingindo a produção de alimentos. Ademais, a decomposição orgânica fornece também o metano à atmosfera, que por ser gás de efeito estufa, potencializa o aquecimento global, trazendo desconfortos térmicos aos indivíduos.

Em consequência do descarte incorreto dos resíduos há desperdício da suas potencialidades socioeconômicas. Nesse sentido, ao analisar o lixo como um negócio, seria possível a inclusão social, já que, a partir de cooperativas de coleta seletiva e de reciclagem, haveria a geração de emprego e, logo, de renda. Adicionalmente, há como possibilidade a produção de energia mediante o tratamento dos subprodutos da decomposição orgânica. Isso, além de reduzir a pressão sobre o meio ambiente, beneficiaria os indivíduos, visto que teriam disponível fontes alternativas de energia. Destarte, assumiria-se o que o filósofo Hans Jonas chama de “princípio responsabilidade”, o qual propõe que, ao realizar uma ação, deve-se pensar na responsabilidade individual e coletiva, a curto e em longo prazo.

Portanto, objetivando reduzir a produção de lixo, cabe ao governo alertar a população acerca dos prejuízos socioambientais trazidos com o consumo inconsciente e com a eliminação inadequada dos resíduos. Isso deve ser feito por meio de propagandas midiáticas, que mostrem os impactos sofridos pelo ecossistema, se esse modo de vida continuar. Assim, caminha-se para o cumprimento da PNRS.