O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 30/08/2019

Na modernidade líquida, de acordo com Zygmunt Bauman, o consumismo ocupa um ponto central na vida em sociedade, visto que, em uma estrutura movida pelo capital, o valor de um indivíduo é medido a partir de seus gastos; contudo, devido a enorme quantidade de resíduos produzidos por tal lógica, esse modo de operação é autodestrutivo. Dessa forma, a cultura do desperdício está intrincada ao ideário populacional. Ademais, o direcionamento do lixo ainda é uma questão negligenciada nesse panorama.

Em primeiro plano, no Brasil, mesmo com um alto nível de impostos, vive-se uma cultura da fartura, uma vez que há, no inconsciente coletivo da população, a concepção de que é melhor sobrar do que faltar, consequentemente, imensas quantias de alimentos são descartados antes mesmo de serem consumidos. Desse modo, segundo o Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil, são produzidos, anualmente, mais de setenta milhões de toneladas de resíduos sólidos no país, sendo que 51% é matéria orgânica, isto é comida, que, por muitas vezes, poderia ser usada para suster quem não possui condições básicas, todavia é perdida por um capricho do ego. Logo, em uma realidade de contrastes, aqueles que dispõem do poder de compra, visam acumular ainda mais disso, enquanto os sujeitos que não detém de recursos para fomentar seu valor social, só lhes resta o anonimato e a miséria.

Além do mais, a ausência de destino para o lixo é uma herança do período de urbanização do Brasil, entretanto, os nocivos hábitos de consumo agravaram e sobrecarregaram um quadro, que possui extrema primazia em diversos âmbitos, como na saúde. Dessa maneira, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 73% dos resíduos são direcionados para aterros sanitários, onde, não raramente, são apenas utilizados como depósitos, sem nenhuma espécie de vistoria ou regulamentação. Por isso, o descaso pelo qual tal assunto é tratado advém dessa mesma lógica consumista, consoante a Friedrich Schiller, “não existe nenhum homem que, se puder ganhar o máximo, se contente com o mínimo”, posto que não hã motivos para investir em tal questão, quando o retorno não é atraente, não gera recursos diretamente e, muito menos, não agrega ao valor social.

Portanto, o Governo Federal deve buscar meios de reformular os hábitos de consumo, a fim de reduzir a degradação exercida por esse modelo. Isto posto, com o Ministério do Desenvolvimento Regional, deve criar centros que receberão esses alimentos que seriam descartados e, mediante a um processo de filtragem, serão utilizados para nutrir as populações vulnerabilizadas. Além disso, com o auxílio da iniciativa privada, deve criar um programa de retribuições, pelo qual os municípios que investirem em melhorias no tratamento e na destinação dos resíduos, serão elegíveis para uma bonificação em seus recursos. Dessa forma, é possível reverter os efeitos dessa cultura nociva.