O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 26/08/2019

No curta-metragem “Wake Up Call”, do ilustrador e animador inglês Steven Cutts, o telespectador é levado a refletir sobre os problemas do consumo e do descarte excessivo na sociedade contemporânea. Na animação, é retratado um cenário capitalista de constante busca por novos produtos, que rapidamente  apresentam falhas e são substituídos por outros ainda mais modernos - a chamada obsolescência programada - o que, por consequência, gera um enorme contingente de lixo. No Brasil, entretanto, não é observada uma preocupação em sanar o descarte inadequado desses dejetos, que além de serem nocivos ao meio ambiente podem ocasionar danos sociais. Dessa forma, a questão do lixo permanece ignorada, situação que é agravada pela falta de infraestrutura e pela cultura do consumismo.

Indubitavelmente, a procura incessante pela aquisição de mercadorias acompanhou o desenvolvimento da sociedade capitalista. Em um sistema onde o acúmulo de bens é sinônimo de poder e status, a indústria conta com um amplo público disposto a comprar o que for sugerido pelo mercado. No entanto, parafraseando o filósofo Arthur Schopenhauer, o desejo humano é insaciável, uma vez que quanto mais se tem, mais se cobiça. Como consequência desse consumo exacerbado há uma grande produção de lixo, que é muitas vezes desvencilhado de forma inconsciente. Tal descarte feito no “modo automático”, em terrenos baldios, lixões e até mesmo em aterros - que apenas mascaram o problema - geram danos preocupantes para a qualidade do solo, dos corpos d´água e também para a saúde pública, visto que tais ambientes são insalubres e passíveis de atraírem animais vetores de doenças.

Por outro lado, há o baixo investimento e a negligência governamental em maneiras sustentáveis de lidar com tal problemática. Sancionado em 2010 pelo Ministério do Meio Ambiente, o Plano Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS) tinha por objetivo eliminar todos os lixões do país até agosto de 2014. Entretanto, cerca de cinco anos depois, o Brasil ainda conta com aproximadamente 3 milhões dessas unidades, segundo um relatório da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Dessa forma, o problema permanece sem perspectiva de resolução.

Em suma, faz-se imprescindível a atuação do Ministério do Meio Ambiente no cumprimento do PNRS, através de multas para os municípios que não o cumprirem em determinado prazo, a fim de realizar o objetivo proposto pela lei em 2014. Além do mais, o mesmo ministério deve investir na coleta seletiva em todo país, para que a longo prazo todo lixo brasileiro seja reciclado. Outrossim, cabe à mídia a disseminação de propagandas que não sejam apenas estímulos ao consumo, mas também à sustentabilidade. Só assim o convívio benéfico entre seres humanos, capitalismo e meio ambiente deixará de ser uma utopia.