O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 27/08/2019
A contemporaneidade, fundamentada pela divisão do trabalho e somada da segregação socio-espacial, produz um cenário caótico comumente visto no Brasil: a sociedade de consumo não tem contato com o lixo produzido e, deste modo, se torna alienada quanto ao seu destino. Em síntese, após a desenfreada produção de lixo, principuamente o de uso único, o cidadão brasileiro não tem conhecimento das insalubridades dos aterros sanitários, aterros clandestinos ou lixões. Com isso, é também negligenciado, por parte das autoridades públicas e do corpo civíl, as condições de vida daqueles que coletam o lixo e o manuseiam.
A princípio, o consumo incontrolável e inconsciente de bens de consumo não duráveis é resultado de uma lógica pré-determinada pelo mercado. Haja vista que a estrutura comercial, incentivada pelos governantes, estimula o consumo exacerbado afim de obter um retorno lucrativo à economia local, estratégias como a produção de obsolescentes programados ou falsas inovações constantes de produtos faz com que a massiva população alienada os consuma de maneira desgovernada, e assim, o lixo é produzido em escala exponencial. Segundo a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), só o Estado de São Paulo produz cerca de 61 toneladas de lixo por dia, ou seja, o Estado que mais incentiva esse modo de vida do consumo desenfreado, é o que mais produz lixo no Brasil e, desta maneira, reavalia políticas públicas para mitigar esse problema.
Neste interím, conforme a sociedade se torna inconsciente quanto ao lixo produzido e seu destino, a condição de vida dos que manuseiam essas excretas indesejáveis à população urbana é igualmente precarizada. Este fenômeno fica explícito nos relatos dos moradores do Jardim Gramacho, distante do epicêntrico Rio de Janeiro urbanizado, comunidade que vivia de um antigo lixão. Segundo os próprios, por dependerem desta atividade para sobrevivência, vivem em um ambiente inóspito, que piorou desde que o lixão foi fechado e é, hoje, um ambiente e uma população abandonada das pautas políticas, cenário caracterizado pela ausência de energia elétrica, saneamento básico e água encanada.
Infere-se, portanto, que este fenômeno é resultado da insuficiência de leis e da lenta mudança de mentalidade da sociedade de consumo, corroborado pela segregação socio-espacial. Com isso, urge que o Ministério da Cidade e Desenvolvimento estruture as comunidades que dependem do lixo para o ganha-pão e, desta maneira, possa promover a ressocialização destes marginalizados através de verbas cedidas pela Receita Federal e, por exemplo, equipar estes bairros periféricos com água encanada, direito básico de todo cidadão e, assim, propiciar o elementar princípio da dignidade humana.