O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 27/08/2019
Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para o lixo e a sociedade de consumo no Brasil, é nítida a influência dos diversos atores sociais sobre a construção desse problema. Nesse contexto, torna-se pontual não apenas questionar como o governo falha na promoção do consumo sustentável, mas também analisar seus impactos no organismo social.
Em primeira observação, é importante compreender como a deficiência estatal na amenização dos problemas retratados possibilita sua recorrência. Confirma-se, dessa maneira, o olhar de Bourdieu, na medida em que esse ator social repercute nas diversas peculiaridades, dificultando seu combate. Nessa perspectiva, é válida a analogia à “democracia falsa”, de José Saramago, pois, segundo o autor, há uma ilusão de livre escolha, enquanto a realidade é ditada pelo viés mercadológico, o qual induz a um consumo desenfreado provocado por uma necessidade artificial, estimulando uma criação exacerbada de lixo, não acompanhada pela gestão precária deste pelo Estado brasileiro. É indiscutível, pois, a necessidade de uma maior participação governamental nesse aspecto, seja na contenção do consumo, seja na administração dos resíduos.
Paralelamente à questão governamental, outro ponto relevante, nesse cenário, é como a pós-modernidade atrapalha o combate ao tema. Atesta-se, por conseguinte, a perspectiva de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem o consumo desenfreado, bem como a superprodução de lixo, como danosos ao meio que estão inseridos, configurando-se cegos pela analogia do pensador e não tomando medidas para conter o problema em razão de não se reconhecerem como partes ativas na construção deste, sendo clara a permissividade social já instalada quanto a ele. Configura-se como determinante, portanto, a necessidade de mudança de hábitos do corpo social para a atenuação do tema.
Haja vista as problemáticas decorrentes do lixo a da sociedade de consumo no Brasil, é mister a implantação de medidas para detê-las. É fundamental que as Prefeituras Municipais, esferas do poder público responsáveis pela administração de dejetos, fomentem o descarte adequado do lixo urbano por meio da criação não só de aterros sanitários, mas também de campanhas incentivadoras da reciclagem, de forma a reduzir consideravelmente o problema com o lixo. Ademais, cabe aos Ministérios da Educação e do Meio Ambiente a criação de diretrizes escolares que, ao serem implantadas desde a primeira infância, criem um senso critico quanto ao consumismo desenfreado pela problematização do mesmo em dinâmicas e debates, criando um corpo social mais consciente e de luta mais ativa frente ao tema. Com essas iniciativas, espera-se que o agrupamento social, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.