O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 13/09/2019

No filme “Os delírios de consumo de Becky Bloom” a protagonista é uma mulher que não consegue controlar seu consumo, sempre comprando mais do que precisa, uma vez que é motivada pela sensação que isso traz. Em um aparente paradoxo, o filme “Trash - a esperança vem do lixo” retrata a história de três meninos que moram em casebres próximos a um lixão, o qual é a fonte de sustento dos moradores. Embora pareçam contrastantes, esses filmes são complementares, pois para entender essa dinâmica capitalista, é necessário compreender toda conjuntura que a cerca, a saber as consequências sociais, econômicas e de bem-estar dessa indústria do desperdício na sociedade brasileira.

A priori, na sociedade de consumo, termo cunhado pelo sociólogo francês Jean Baudrillard, a ideia do descarte sustentável não é um tema abordado com frequência. Analogamente, o filósofo Schopenhauer dizia que o ser humano vive em prol de realizar suas vontades, as quais são insistentes e mutáveis quando atingidas, ou seja, para ele a humanidade nunca estaria completamente saciada. Semelhantemente, o capitalismo usa esses desejos, inerentes à raça humana, para alimentar sua lógica consumista. A saber, computadores e smartphones são modernizados em uma pequena escala de tempo, e os antigos aparelhos tornam-se ultrapassados por não abrangerem as novas funções, sendo descartados na aquisição de um novo modelo, a isso dá-se o nome de Obsolescência Programada, estratégia de lucro implementada pelo Toyotismo, após a crise econômica de 1929.

A saber, as novas técnicas de redução da vida útil dos aparelhos fizeram com que a quantidade de e-lixo (lixo eletrônico) aumentasse consideravelmente, trazendo prejuízos aos países que não possuem descarte adequado para esses materiais, como é o caso do Brasil. Logo, os problemas começam com o lixo comum sendo descartado, de forma indiscriminada, em lixões a céu aberto, dessa forma os destilados, derivados dos resíduos, como o chorume, escoam para os lençóis freáticos, contaminando a água subterrânea. Com os eletrônicos a preocupação aumenta, porque os constituintes desse material liberam metais tóxicos, como o Zinco e o Mercúrio, os quais ao atingirem os corpos aquíferos trazem contaminação grave e em larga escala, tanto econômica quanto de bem-estar social.

Dessa maneira, é preciso repensar a forma como o consumo e o descarte é analisado no Brasil. É imprescindível, portanto, que o Ministério da Educação, com o apoio da mídia, atue na promoção de um ensino conscientizador sobre a dinâmica da sociedade de consumo, por meio de palestras, workshops com empresas que trabalhem sob a temática do lixo zero, feiras de ciências inovadoras e propagandas que abordem os malefícios desse comportamento. Como resultado, espera-se que os brasileiros diminuam o consumo visando preservar as reservas de água e melhorar a qualidade de vida de todos.