O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 18/10/2019
Na obra “Cegueira Moral”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é relatada a falta de sensibilidade da sociedade em meio às dores do indivíduo, em conjunto com a ausência de sentido da palavra comunidade, em um mundo imerso no individualismo. Nesse contexto, ao se analisar a questão do acumulo de lixo na sociedade, percebe-se que a indiferença descrita por Bauman está extremamente ligada aos problemas do seculo XXI. Esse cenário é fruto tanto da falta de políticas públicas eficientes, quanto consumismo exagerado. Diante disso, torna-se fundamental a discussão desses aspectos, a fim de que se retome o sentido da palavra comunidade nesse século.
Precipuamente, é fulcral pontuar que o excesso de lixo não tratado deriva da baixa atuação dos setores governamentais, no que concerne à criação de mecanismos que coíbam tais recorrências. Segundo o pensador Thomas Hobbes, o estado é responsável por garantir o Bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, devido à falta de atuação das autoridades, na realização de coletas seletivas que deem o destino adequado ao lixo. Em consequência disso, ocorre a contaminação, por produtos químicos, de lençóis freáticos localizados próximos aos aterros sanitários, tornando-se um grande risco a população que depende da água de rios afluídos por essas reservas subterrâneas. Desse modo faz-se mister a reformulação dessa postura estatal de forma urgente.
Ademais, é imperativo ressaltar o alto consumo como promotor do problema. Conforme o sociólogo alemão Ralf Dahrendorf no livro " A lei e a ordem", a anomia é a condição social em que as normas reguladoras dos comportamentos das pessoas perdem sua validade. De forma análoga, nota-se que as leis que regulamentam a preservação do meio ambiente encontram-se em estado de anomia, pelo fato de serem infringidas constantemente pela sociedade. Em decorrência disso, há um aumento no consumo de produtos desnecessários a população, pois de acordo com uma pesquisa do portal de notícias G1, o indivíduo está comprando mais produtos sem uma real necessidade, o que leva ao aumento do lixo jogado no meio ambiente. Por certo, essa atitude contribui para esse quadro deletério.
Portanto, é possível defender que impasses econômicos e sociais constituem desafios a se superar. É fundamental, em vista disso, que o Ministério do meio ambiente proporcione a criação de leis, a serem aprovadas pelo Senado, que obriguem os municípios a realizarem coletas seletivas de lixo, por meio de dias alternados para a coleta de cada tipo de material. Essas coletas terão parceria com empresas privadas para que seja vendido o lixo reciclável e o recurso gerado com essa parceria seja destinada a distribuição de lixeiras seletivas pela cidade. Desse modo, atenuar-se-á, em médio e longo prazo, o impacto nocivo do excesso de lixo e a coletividade contornará a Cegueira Moral de Bauman.