O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 05/10/2019

“Minha terra tem palmeiras. Onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam. Não gorjeiam como lá”. A letra de “Canção do Exílio” do poeta Gonçalves Dias, retrata a exuberância e a imponência das belezas naturais brasileiras. Entretanto, hodiernamente observa-se uma ameaça à preservação do meio ambiente nacional devido à elevação do consumo entre a população e a consequente produção de lixo. Com efeito, a inoperância estatal no controle e descarte adequado de lixo e a omissão social frente à produção exagerada de resíduos, configuram-se como entraves para a resolução do problema.

Em primeira análise, nota-se o descaso do Estado no que tange à expansão de planos de coleta seletiva e o gerenciamento de resíduos. Segundo a óptica filosófica de São Tomás de Aquino todos os cidadãos são iguais em direitos e dignos da mesma importância. Contudo, a prática deturpa a teoria, visto que a malha brasileira carece de planos efetivos de coleta de lixo, a fim de separar o material reciclável e destinar o restante ao respectivo fim. Em consequência disso, tais excretas se acumulam nos centros urbanos, o que leva à propagação de doenças como leptospirose, cólera e difteria. Nesse contexto, tal panorama caótico contrapõe-se aos dizeres da Carta Magna de 1988, a qual assegura uma ambiente ecologicamente sustentável e equilibrado aos cidadãos.

De outra parte, percebe-se a indiferença social no que se refere ao consumismo e o seu impacto nos ecossistemas naturais. De acordo com o sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua Teoria do Habitus, o corpo social possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos. Sob esse viés, depreende-se que a coletividade, ao longo do tempo, absorveu uma “cultura do consumo”, a qual é pauta na aquisição de bens materiais de forma desregrada e, consequentemente, leva à exagerada produção de lixo. Por conseguinte, vê-se tal fato diretamente ligado à degradação ambiental e morte de espécies marinhas. Destarte, medidas enérgicas são necessárias para se alterar essa “padronização” proposta por Bourdieu.

Portanto, nesse cenário, é vital a modificação do quadro nocivo do consumo desmedido e a produção de lixo no Brasil. Para tanto, o Tribunal de Contas da União, deve aumentar o percentual de verbas que, por intermédio do Ministério do Meio Ambiente, serão revertidas na construção de centros de descarte de resíduos e separação de materiais reaproveitáveis, além do reforço de profissionais técnicos em meio ambiente, com o intuito de minimizar os danos ao meio natural e a paisagem urbana, no fito de garantir o que é previsto em Lei. Ao mesmo tempo, cabe às Prefeituras, aliadas às ONGs, a realização de palestras e mesas-redondas em escolas e centros culturais, com vistas a informar a população acerca dos males do consumismo. Assim, o Brasil de “Canção do Exílio” seria preservado.