O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 06/10/2019

No livro infantil O menino que quase morreu afogado no lixo, de Ruth Rocha, um garoto acumula  restos daquilo que usa seu em seu quarto, situação que culmina no aprisionamento dele ao ver-se cercado de lixo. Igualmente, na realidade brasileira, os impactos do excesso de dejetos do que a sociedade consome sem parâmetros têm origem numa ingenuidade acerca da cadeia produtiva e no apelo a padrões impensados de compra.

Em primeira instância, não se pode olvidar que o excesso de dejetos decorrente do consumo humano tem ligação direta com a falta de consciência ambiental que permeia parte expressiva da população. Nesse sentido, em diálogo com o divulgador científico Carl Sagan, é mais fácil apresentar de forma atraente o produto destilado do que detalhar o confuso mecanismo da destilação. De fato, observa-se que o desconhecimento acerca dos impactos negativos do descarte de lixo domiciliar corrobora para que materiais de difícil degradação, como o plástico, sejam cada vez mais incorporados em via de uma melhor conservação - sem se que se pese a influência deles em ecossistemas fundamentais ao funcionamento na biosfera.

Outrossim, não se pode olvidar de um apelo industrial a padrões de vida ditos de qualidade, que não se coligam com pensamentos a longo prazo. Com efeito, no início do século XX americano, cosméticos contendo concentrações de elementos radioativos eram comercializados se valendo da imposição de padrões estéticos e da ignorância popular. Igualmente, o oferecimento de produtos com teor imprescindível a uma boa vida desencadeia um aumento na compra que, sem facilidade de retorno reciclável, contribui com a acumulação irresponsável das sobras. Tal situação, junto com o descarte inadequado, culmina na lotação de cidades com lixo - conforme retratado de forma menor no livro da autora infantil.

Destarte, importa a concretização de ações que visem à incorporação de alternativas ecológicas aos hábitos de consumo, de modo a impedir o acúmulo de dejetos na natureza. Por isso, é imperioso a exigência, pelo Inmetro e pela Anvisa, da incorporação de códigos QR nas embalagens de produtos das empresas. Tal mecanismo serviria para encaminhar o consumidor a vídeos instrutivos, produzidos pelos próprios órgãos em aplicativos de multimídia, sobre a correta destinação dos diferentes tipos de lixo. Ademais, serviria para informar sobre meios de reutilização dos produtos com intuito de evitar a produção doméstica de lixo, como a frequentação de feiras utilizando as próprias embalagens como forma de armazenamento. Assim, é possível influir uma percepção crítica e participativa acerca da cadeia produtiva do lixo e do consumo no Brasil.