O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 22/10/2019

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou na obra “Os retirantes” uma família que sai de uma região à outra em busca de condições melhores de vida. Com o objetivo de evidenciar o cotidiano do Brasil, o autor denuncia os problemas sociais do país. Semelhante ao cenário, os brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de uma consciência global na produção de lixo. Tal demanda para findar o mau e exacerbado descarte de dejetos, no entanto, é deturpada devido à inobservância governamental e à ignorância da mentalidade social intrínsecas ao impasse.

Segundo Thomas Hobbes, o Estado é responsável por garantir o bem-estar da sociedade. Entretanto, essa ideia encontra-se negligenciada visto que a falta de políticas que diminuam a produção de lixo aliada à baixa fiscalização no correto destino que o mesmo irá levar corroboram a permanência dos problemas que os resíduos geram, como a proliferação de doenças. Dessa forma, a impunidade encontrada pelo descarte do lixo de forma inadequada dificulta o combate da prática por demonstrar a ausência de consequências para tal, o que comprova a inatividade do Governo. Portanto, sem o comprometimento desse setor, questões como a contaminação dos solos e a poluição residual tendem a permanecer e colocam em risco a integridade dos cidadãos.

Outrossim, além da omissão do sistema punitivo, há como agravante a perpetuação do descaso com problemas ambientais, enraizado no país há séculos. Consoante à Teoria do Habitus, de Pierre de Bourdieu, nossas práticas são resultado de condições culturais específicas de uma sociedade. Dessarte, a negligência com as implicações negativas causadas pelo lixo, protagonizada repetidamente na história, é repassada e ainda ecoa na atualidade, o que gera um ciclo que deve ser desfeito. Desse modo, uma mudança nos valores da comunidade é essencial para que a destruição do meio por atos não refletidos ao longo do percurso não seja um obstáculo a ser enfrentado ao longo das gerações.

Depreende-se, portanto, que a questão é grave e deve ser findada. Para isso, cabe ao Governo criar postos de denúncias de descarte de dejetos em locais errados, para gerar maior movimentação para fiscalizações mais firmes. Ademais, cabe à escola ampliar a visão de mundo do indivíduo por meio da inclusão de matérias de consciência ambiental na grade curricular. Assim, os alunos serão instruídos a refletir sobre as consequências dos resíduos na natureza, a fim de que, através da análise do ambiente, eles possam contribuir para mudanças e melhorias na sociedade. Dessa forma, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.