O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 28/08/2020
A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, permitiu a produção de mercadorias em larga escala, aumentando a quantidade de lixo descartado. O “american way of life” (estilo de vida americano), consolidado em um período de intensa produção industrial, estimulou o consumismo. Entretanto, esses eventos não se restringiram aos seus países de origem, mas também podem ser observados atualmente no Brasil. Nesse sentido, é necessário analisar o papel da sociedade consumista brasileira na produção de lixo e a gestão desses resíduos pelos municípios.
Primeiramente, de acordo com o conceito de fetichismo da mercadoria de Karl Marx, o valor dos produtos, no modelo de produção capitalista, deixa de ser mensurado pela sua utilidade e adquire valor simbólico, que é utilizado como status social. Sob esse viés, o sociólogo Zygmunt Bauman na obra “Vida de consumo”, destaca como o consumismo é essencial na formação da identidade, ou seja, o prestígio do “ter” em detrimento do “ser”, em que o indivíduo é movido por uma necessidade de consumir para adequar-se socialmente. Assim, a mentalidade materialista é enraizada no corpo social e como consequência, gera um ciclo de aquisição e descarte, dificultando o manejo correto do lixo.
Dessa maneira, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, estabelecida em 2010, pretendia a substituição de lixões a céu aberto por aterros sanitários, uma forma mais apropriada para a destinação dos despejos. Contudo, a lei não foi cumprida, uma vez que, dados do Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (ISLU) demostram que quase metade dos municípios brasileiros ainda fazem o depósito irregular. Dentro desse contexto, prejuízos ambientais, como a contaminação do solo e a eliminação de gases do efeito estufa, são intensificados. Além disso, os lixões propiciam um meio favorável à propagação de doenças, representando risco à saúde dos catadores de reciclagem, que muitas vezes tem a sua importante função ignorada pelos governantes.
Portanto, é mister que as ONGs, a fim de promover o consumo consciente na sociedade, incentive a economia de compartilhamento, em que o consumo de produtos é dividido entre diferentes indivíduos, tal ação deve ser realizada por meio da divulgação nas redes sociais de aplicativos que oferecem esse recurso. Outrossim, compete aos Governos Municipais a implementação de aterros sanitários compartilhados com outros municípios, como alternativa de menor custo, visando a melhoria no descarte do lixo; urge, também, a geração de renda e emprego para catadores de reciclagem mediante a ampliação de ecopostos, para que, assim, o lixo torne-se uma fonte de oportunidades.