O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 30/08/2020
Na obra “A cidade do Sol”, do escritor renascentista Tommaso Campanella, é retratada uma sociedade utópica, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. Entretanto, o descaso com o lixo e o consumismo no Brasil, contraria a idealização formulada pelo filósofo. Nessa perspectiva, diante de uma realidade instável que mescla discussões sobre o consumismo desenfreado e sobre a falta de separação do lixo, o entrave permanece afetando grande parcela da população e exige uma reflexão imediata.
A princípio, é importante destacar que a gestão irregular do lixo corrobora na problemática em questão. Segundo a filosofa alemã Hannah Arendt “a sociedade sustenta práticas deploráveis simplesmente por não analisar a repercussão desses atos”. Com isso, os cidadãos, ao ignorarem hábitos de coleta seletiva – como a separação dos resíduos secos, úmidos e perigosos –, tendem a permanecer omissos em técnicas de logística reversa após o consumo, prejudicando o trabalho das indústrias de reciclagem. Logo, a atitude da população aumenta a taxa de objetos tóxicos em lixões e aterros sanitários, além de facilitar alterações no microclima da região.
Ademais, é fulcral pontuar a relação do despejo com o consumismo da população. Partindo de uma perspectiva analítica, os sociólogos Adorno e Horkheimer ressaltaram que a compulsão pelo consumo é devido à Indústria Cultural, a qual incute nos cidadãos a necessidade de comprar determinados itens como premissa para se fazerem aceitos coletivamente. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, aproximadamente 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos são produzidos pelo país e 50% do lixo é composto por materiais de plástico, vidro, alumínio, papel e tecidos. Desse modo, é necessário a quebra dessa situação que prejudica a nação brasileira.
Portanto, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço da problemática. Assim, é necessário que o Governo, em parceria com a prefeitura de cada cidade, promova o descarte adequado do lixo, por meio da instalação de lixeiras específicas em pontos de grande circulação e caminhões que recolham, separadamente, lixo orgânico de lixo reciclável, para que o impacto dos resíduos no meio ambiente seja atenuado. Além disso, as instituições educacionais, em conjunto com as famílias, devem fomentar o combate as práticas do consumismo desenfreado, por meio de rodas de discussão com psicólogos, exposição de documentários e diálogos sobre essa temática, com o objetivo de formar compradores conscientes. Somente assim, notar-se-á a sociedade ideal e perfeita especificada na utopia de Campanella.