O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 25/10/2020

Na poesia concreta “Lixo, Luxo”, do poeta brasileiro Augusto de Campos, a palavra “lixo” é construída a partir da repetição do vocábulo “luxo”, organizado em pequena escala. À luz dessa obra, uma das interpretações possíveis relaciona-se à sociedade de consumo no Brasil e seus efeitos na geração de lixo. Assim, destacam-se como causas da problemática a função de distinção social atribuída às mercadorias e o descaso empresarial com os impactos da produção.

A princípio, é relevante ressaltar a carga simbólica que a aquisição de produtos carrega. Nesse sentido, segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, os hábitos de consumo da população estão intrinsicamente ligados à diferenciação de classe e, por isso, são importantes representações de poder. Sob essa análise, é evidente que o ato de compra promove satisfação para o indivíduo e, mais do que isso, garante a ele o status desejado dentro do meio social. Desse modo, o consumismo aparece como característica predominante nas comunidades humanas e tem como consequência o descarte excessivo de resíduos, o que vem a agravar a questão do lixo.

Outrossim, a atividade industrial é responsável por poluir a natureza com grande quantidade de detritos. Isso posto, de acordo com o sociólogo alemão Karl Marx, em seu livro “O Capital”, a lógica capitalista de mercado prioriza o lucro em detrimento de valores. Nessa perspectiva, de maneira a suprir as demandas da sociedade de consumo e a obter ganhos com as negociações, as indústrias exploram demasiadamente os recursos naturais e descartam volumes expressivos de lixo com as produções em larga escala. Essa ideia é reforçada pela redução da durabilidade de bens e pelo lançamento frequente de novos modelos, o que incentiva o consumismo e, por conseguinte, a degradação do meio ambiente.

Portanto, cabe às escolas, em parceria com as famílias, importantes instituições socializadoras, conscientizar as novas gerações quanto à necessidade de adoção de hábitos de consumo sustentáveis, por meio do estímulo à educação ambiental desde os primeiros anos de vida das crianças, a fim de frear o ciclo vicioso de compra e descarte típico do mundo contemporâneo. Aliado a isso, os governos municipais devem fiscalizar as empresas, com o propósito de assegurar que elas cumpram as normas de extração de matérias primas e da correta destinação dos resíduos do processo produtivo. Dessa forma, espera-se construir um país mais saudável e com cidadãos mais responsáveis frente às próprias atitudes.