O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 26/10/2020
O ser em destaque na obra “O Grito”, do artista norueguês Edvard Munch, parece experimentar extremo desconforto e pânico diante do desconhecido. Essa representação vai de encontro à ausência do sentimento de estranhamento social diante dos impactos causados ao meio ambiente pelo acúmulo de lixo no mundo, já que, contrário à personagem, a sociedade, voltada somente para o consumo, não mais se espanta, sendo indiferente diante da não compreensão do problema. Assim, entre os fatores que contribuem para aprofundar a realidade, destacam-se a cultura capitalista e a negligência estatal.
Em primeiro plano, é importante destacar que a mentalidade capitalista que permeia o corpo social corrobora o aumento da produção de lixo. Segundo a obra “Microfísica do Poder”, do filósofo francês Michel Foucault, a sociedade é dominada pelo pensamento do desenvolvimento científico e tecnológico e atua a favor dos mercados financeiros, econômicos e do lucro. Dessa forma, o corpo social motiva o consumo desenfreado, que também requer uma produção em larga escala, culminando na necessidade de descarte de produtos considerados ultrapassados e na substituição desses por novos. Consequentemente, esse despojo, realizado de maneira incorreta por muitos cidadãos, prejudica o meio ambiente, interferindo nos ecossistemas e na qualidade de vida dos animais.
Ademais, é inegável que a baixa atuação de setores estatais aprofunda a problemática. De acordo com a Constituição Federal, todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. No entanto, essa garantia não é efetivada a partir do momento em que as leis que regulamentam a preservação do ambiente são ineficientemente, ou sequer aplicadas, visto que o Estado ainda tolera, em muitos casos, o descarte incorreto do lixo por parte da comunidade e das grandes indústrias. Dessa forma, faz-se mister a reformulação urgente dessa postura estatal.
Portanto, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço da problemática no país. Assim, a fim de abrandar o imbróglio, é imprescindível que a mídia cobre uma mudança urgente de postura da sociedade, por meio da distribuição de informações e instruções acerca do desenvolvimento sustentável e também da propagação de discursos conscientizadores nos meios de comunicação de massa – como por exemplo o rádio e a televisão, que possuem um grande poder de alcance. Além disso, o Estado deve assegurar as garantias expressas na Constituição Federal, por meio da aplicação das devidas punições àqueles que violam a legislação. Por conseguinte, a coletividade deixará de ser indiferente, contestando a situação problema assim como a personagem da obra de Munch.