O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 27/10/2020

O ser em destaque na obra “O Grito”, do artista norueguês Edvard Munch, parece experimentar extremo desconforto e pânico diante do desconhecido. Essa representação vai de encontro à ausência do sentimento de estranhamento social diante dos impactos causados ao meio ambiente pelo acúmulo de lixo no mundo, já que, contrário ao personagem, a sociedade, voltada somente para o consumo, não mais se espanta, sendo indiferente diante da não compreensão do problema. Assim, entre os fatores que contribuem para aprofundar a realidade, destacam-se a cultura capitalista e a negligência estatal.

Em primeiro plano, é importante destacar que a mentalidade capitalista, que permeia o corpo social, corrobora o aumento da produção de lixo. Isso ocorre, pois, o sistema econômico vigente, objetivando somente a obtenção do lucro, motiva o consumo desenfreado por parte da sociedade, o qual acarreta no aumento da compra e, posteriormente, do descarte de bens. Segundo a obra “Modernidade Líquida”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, os tempos são ‘líquidos’ porque tudo muda rapidamente, nada é feito para durar, para ser ‘sólido’. De maneira análoga, as indústrias começaram a conceber produtos menos duráveis, ou seja, aumentando tanto o consumo de outros materiais, bem como o despacho dos mesmos. Desse modo, torna-se fundamental a reformulação dessa postura.

Ademais, é inegável que a baixa atuação de setores estatais aprofunda a problemática. De acordo com a Constituição Federal, todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. No entanto, essa garantia não é efetivada a partir do momento em que as leis que regulamentam a preservação do ambiente são ineficientemente, ou sequer, aplicadas, dando espaços, por exemplo, para que muitos cidadãos, de forma inconveniente, descartem o lixo sobre as ruas e sobre o ambiente, o que prejudica a qualidade de vida da população.

Portanto, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço da problemática no país. Assim, a fim de abrandar o imbróglio, é imprescindível que a mídia cobre uma mudança urgente de postura da sociedade, por meio da distribuição de informações e instruções acerca do desenvolvimento sustentável e também da propagação de discursos conscientizadores nos meios de comunicação de massa – como por exemplo o rádio e a televisão, que possuem um grande poder de alcance. Além disso, o Estado deve assegurar as garantias expressas na Constituição Federal por meio da aplicação das devidas punições àqueles que violam a legislação. Dessa forma, a coletividade deixará de ser indiferente, contestando a situação problema assim como na obra de Munch.