O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 18/12/2020
O aterro Jardim Gramacho, localizado no Rio de Janeiro, serviu de palco para a criação das obras do artista plástico Vik Muniz, o que ficou retratado no documentário “Lixo extraordinário". No entanto, apesar de o longa-metragem demonstrar com maestria a possibilidade de reutilização dos resíduos, esse cenário discorre contra a realidade do Brasil, marcada pela produção exacerbada e destinação inadequada do lixo. Nesse contexto, apresentam-se como catalisadores dessa situação crítica não só a displicência do Estado, mas também a organização produtiva e econômica do país.
É importante frisar, um princípio, que a negligência estatal acerca da necessidade de efetivar o cuidado com os resíduos da população é nociva. À luz desse panorama, mesmo que a Constituição, pelo projeto de lei PNRS, garanta aos cidadãos o direito à destinação do seu lixo de maneira ecologicamente viável, percebe-se que essa premissa não é efetivada. A principal razão para ponderar tal alegação é que, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 73% do que é descartado pela população vai diretamente para depósitos a céu aberto. Dessa forma, além de propiciar a contaminação dos cursos biológicos, tal conjuntura expressa a incongruência estatal no que tange à efetivação dos direitos produção por lei, haja vista que a sua prescrição no papel não garantia, de fato,
Em segunda análise, a configuração do modelo produção também dificulta o gerenciamento do lixo. Nesse sentido, Theodoro Adorno sustentava a máxima de que a Indústria Cultural, por intermédio de métodos coercitivos, internaliza na sociedade falsas necessidades, induzindo-a a um padrão de consumo irracional. Consoante isso, esse comportamento, aliado ao não reaproveitamento de matéria, torna a quantidade de lixo gerada expressiva. Isso ocorre principalmente porque não há uma política efetiva de reutilização em escala industrial e, desse modo, para manter as necessidades da população, a cadeia produtiva necessita explorar quantidades crescentes de recursos naturais. Logo, tal fato além de preocupante, revela que, à medida que nenhum produto é feito para ter vida útil prolongada a fim de gerar lucro pela sua reposição, a natureza também tem sua existência gradativamente tolhida.
Portanto, é visível a necessidade de alçar medidas para resolver a problemática. Para isso, o Ministério do Meio Ambiente, por meio de incentivo à isenção fiscal de empresas privadas, deve recolher recursos para o desenvolvimento e custeio de um projeto que tenha como objetivo a reinclusão dos resíduos à indústria. Esse projeto deve ser firmado a partir da participação de ambientalistas e biólogos, a fim de propiciar a disseminação do conhecimento das potencialidades dos materiais descartados e a necessidade de repensar o consumo.Assim, em um futuro próximo, será possível que o lixo seja reintroduzido à vida dos brasileiros e visto de outra forma, como em “Lixo extraordinário”.