O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 25/05/2021

O geógrafo brasileiro Milton Santos entendia que a indústria globalizada moderna “produz o consumidor antes dos produtos”. Dessa maneira, é possível tratar de problemas relacionados ao consumo excessivo e geração abundante de resíduos a partir de uma perspectiva estrutural e sistemática, para que se evidencie que tais problemas não são produzidos pelo consumidor em si, mas sim pelo sistema que o engloba.

De ínicio, cabe ressaltar que a  relação íntima entre as grandes empresas torna o consumo excessivo uma atividade muito lucrativa. Os conglomerados e oligopólios industriais conseguem, devido a proporção de seus capitais, produzir mercadorias mais diversas, em maior escala e com menores preços. Assim, é possível criar consumidores mais fiéis, inseridos na ponta de uma cadeia produtiva em que o lucro da venda unitária do produto seja baixo, mas que inunda o mercado com mercadorias que se complementam, de tal forma que os despejos abusivos dos resíduos gerados nessa produção excessiva são mantidos em prol da máxima acumulação capitalista.

Além disso, destaca-se a influência que a dominação ideólogica presente na atualidade exerce no caso da produção de lixo, individualizando a culpa dos impactos dessas práticas. Desse modo, o processo produtivo é retratado de forma nebulosa, mas o lixo em si é amplamente evidenciado na atividade particular do consumo e a responsabilidade de seu manejo é colocada inteiramente sobre as costas do indivíduo, que se encontra sobrecarregado e refém da reprodução ideológica em que “as ideias da classe dominante tornam-se as ideias dominantes entre todos”, como dito pelos pensadores alemães Marx e Engels.

Portanto, é crucial que a população se mobilize em torno, não só das iniciativas individuais para a minimização dos impactos gerados pelo consumo, mas na mudança estrutural da ordem produtiva. Assim, a sociedade civil deve pressionar o Estado para que, por meio de ministérios como os do Meio Ambiente e da Economia, se estabeleçam maiores cotas produtivas e incentivos fiscais àqueles que se propuserem a fazer mercadorias de menor impacto ambiental e, em escala local, se fortaleçam as redes de reciclagem e coleta de resíduos, de tal maneira que não só a quantidade de lixo se reduza e seja melhor destinada, mas que a relação consumista deixe de ser um vício, tanto social quanto particular, e torne-se o veículo do atendimento das necessidades materiais do cidadão.