O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 11/08/2021
Consoante ao marxismo, os indivíduos são permeados pela logística capitalista de produção, responsável por estruturar os aspectos socioculturais e econômicos da sociedade civil. Sendo assim, o modo como o lixo é produzido, no Brasil, é reflexo da macroestrutura capitalista, visto que estimula o hábito do consumo exacerbado, alicerçado na exploração extenuante de recursos naturais, a fim de potencializar sua lucratividade; já o modo como os resíduos são descartados revela a falta de infraestrutura Estatal em sua destinação, pois há um incipiente reaproveito. Portanto, tal conjuntura tem como principais dilemas: os prejuízos ambientais e o desperdício das potencialidades socioeconômicas acerca da gestão do lixo.
De acordo com o geógrafo Milton Santos, o espaço geográfico é fruto da materialidade e da ação humana. Dessa forma, a materialidade capitalista, ao construir a cultura do consumismo frenético, amparado na obsolescência programada dos produtos, se reflete no espaço por meio da degradação intensa da natureza, porque necessita de matéria-prima para dar continuidade ao seu ciclo produtivo, e por meio do intenso acúmulo de resíduos, que, na maioria dos casos, tem nos lixões o seu fim. Por conseguinte, tais fatores solapam o meio ambiente e põem em risco pessoas que entram em contato com os descartes, pois o amontoado de lixo cria um meio de dispersão de vetores patológicos, além de contaminar o solo e os lençóis freáticos, ao produzir biogás.
Por outro lado, o descarte inadequado dos resíduos nos lixões fomenta o desperdício das potencialidades econômicas acerca dos rejeitos, visto que, a sociedade e o Estado, ao não enxergarem a reciclagem como conduta atenuante do esgotamento ambiental, inviabilizam o desenvolvimento de renda e de geração de empregos em cooperativas de coleta seletiva, agravando as desigualdades socioeconômicas. Ademais, caso a logística de reaproveitamento fosse imperante, no seio civil, o biogás produzido pela decomposição dos despejos poderia ser aproveitado nas termoelétricas para geração de energia, aliviando as demais redes energéticas.
Logo, a fim de que se destine, de modo adequado, os resíduos e se preserve o meio ambiente, faz-se necessário que ONGs, em parceria com as Secretarias Municipais e Estaduais do Meio Ambiente, ampliem e consolidem as cooperativas de coleta seletiva e de reciclagem, por meio da divulgação e da construção de ecopostos, potencializados pela concessão de incentivos fiscais a empresas que garantam o reaproveitamento de matéria-prima. No entanto, tais medidas só se efetivarão, por meio de uma reformulação educacional, da qual desconstrua o hábito do consumo desnecessário e promova a criticidade acerca da importância da preservação dos ecossistemas.