O lixo e a sociedade de consumo no Brasil

Enviada em 05/10/2021

Na obra “Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente, pai do teatro português, tece uma crítica a diversos comportamentos viciosos do século XVI. De maneira análoga, fora da ficção, o Brasil do século XXI demonstra as mesmas conotações no que tange ao lixo, visto que tal problema tem consequências desastrosas e é agravado pelo consumismo da sociedade. Nesse sentido, cabe analisar a falta de investimentos e a lógica capitalista enquanto pilares da problemática.

Em primeira análise, é notório que a ausência de capital investido é um fator determinante para a persistência do impasse. De acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas, a taxa de investimentos no Brasil, somando os setores público e privado, está no menor nível dos últimos 50 anos. Entretanto, para resolver problemas coletivos, como o lixo, é necessário um investimento massivo, tanto em coleta seletiva de resíduos para reciclagem, quanto em campanhas de incentivo ao consumo consciente. Assim, essa lacuna monetária contribui para o agravamento da questão.

Ademais, é evidente que a priorização de interesses financeiros influi fortemente na consolidação da problemática. Segundo o pensamento de Karl Marx, a base de uma sociedade capitalista é o capital. Nessa perspectiva, nota-se que a indústria capitalista prioriza majoritariamente o lucro e produz cada vez mais produtos, visando expandir a venda, o que eleva a quantidade de lixo depositado no ambiente, proveniente do descarte da matéria prima usada na fabricação, além de fomentar o consumo desenfreado. Dessa forma, essa lógica de capital atua no aumento de resíduos despejados na natureza.

Em suma, medidas são necessárias para combater a questão do lixo na sociedade de consumo brasileira. Portanto, é preciso que o Governo Federal, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, por meio de investimentos em uma campanha nacional, promova a criação de pontos de coleta seletiva e reciclagem em cidades de todo o país, com o intuito de diminuir os índices de detritos jogados no meio ambiente. Tal ação deve contar também com a divulgação de postagens nas redes sociais que informem e incentivem o consumo consciente. Paralelamente, urge intervir sobre a priorização monetária. Desse modo, possivelmente, a crítica de Gil Vicente deixará de compor o contexto atual.