O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 04/11/2021
“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. Nessa concepção, a afirmação atribuída à filósofa francesa Simone de Beauvoir é claramente aplicável a situação do negligente descarte de lixo tecnológico, ao considerar que mais danosa que sua ocorrência é indiferença da sociedade perante a questão. Desse modo, o lixo doméstico e fabril contendo baterias com metas pesados – mercúrio, zinco, chumbo – são descartadas com escasso tratamento, o que revela a ação predatória do homem. Com efeito, há de se deliberar como a frágil visão do futuro e a poluição têm influência na questão.
Em primeiro plano, a indiferença da sociedade perante ao correto refugo de bateria e de pilha é uma das principais causas para a agressão ao meio ambiente com substâncias químicas nocivas. A esse respeito, o filósofo Hans Jonas disserta, na obra “O princípio da responsabilidade”, que não se pode sacrificar o futuro pelo presente. Nessa visão, a despreocupação velada da sociedade demonstra quão grave, insustentável e generalizada essa situação pode se tornar, ao considerar que as pilhas e as baterias ao entrarem em contato com o solo e água liberam substâncias nocivas à fauna e à flora, o que representa grave problema de ordem ambiental. Diante disso, é impreterível que o descarte correto desses materiais seja estimulado por políticas públicas.
Ademais, em segundo plano, a falta de compromisso empresarial figura como outro desafio. Acerca disso, o cientista Stephen Hawking afirma que a poluição, a ganância e a estupidez são as maiores ameaças ao planeta. Nesse sentido, não há dúvidas que o descarte de lixos eletrônicos não tem recebida a devida atenção das empresas que fabricam esses materiais, visto que a coleta desses produtos requer mais recursos econômicos, o que, de certa forma, inviabiliza seu emprego. No entanto, é dever dos representantes eleitos a criação de mecanismos capazes de desenvolver o senso de sustentabilidade do meio ambiente, o que deve ser colocado em prática como uma prioridade. Lê-se, pois, como grave, diante das danosas consequências aos recursos naturais: a poluição.
É mister, portanto, que o lixo tecnológico seja corretamente descartado. Para tanto, o Ministério Público – na condição de fiscal da lei – deve, por meio de Ação Civil Pública, denunciar autoridades omissas quanto ao correto descarte de baterias e de pilhas, para que o meio ambiente não seja penalizado – ainda mais – com a falta de gestão e de procedimento de representantes competentes. Essa iniciativa do MP terá por objetivo problematizar a situação e, assim, mobilizar a sociedade civil para verbalizar sua indignação. Feito isso, muito em breve, a frágil visão de futuro e a poluição dos recursos naturais deixarão de ser, conforme delata Beauvoir, um escândalo.