O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 08/11/2021
A animação “Wall-E” narra um futuro distópico no qual a humanidade, após poluir a terra e a atmosfera com lixo e gases tóxicos, passa a viver em uma nave. De forma análoga à obra cinematográfica, a questão da produção excessiva de resíduos, em função da sociedade de consumo, é uma realidade no país. Nesse sentido, a alta geração de detritos deriva tanto da ampliação da lógica capitalista quanto de uma lacuna na educação ambiental brasileira.
Em primeira análise, sob a ótica do sociólogo alemão Karl Marx, o sistema capitalista funciona a partir da idealização do lucro máximo e assim, tem a tendência a ignorar todos os impactos que seu desenvolvimento desenfreado exercem sobre o meio ambiente e o tecido social. Tal cenário é facilmente identificável na contemporaneidade, uma vez que a população é estimulada, constantemente, a adquirir produtos, de modo que o valor social do indivíduo passa a ser medido por seus bens. Nesse ínterim, o escritor Guy Debord aponta que a “sociedade do espetáculo” é guiada pela mídia a “ter” mais do que “ser”, e no contexto da superexposição nas redes sociais, o “parecer” prevalece ainda mais sobre o ter.
Em segunda análise, a falha educacional brasileira contribui para uma alienação nas questões ambientais, uma vez que uma parcela cívica desconhece a quantidade de insumos utilizados na fabricação de cada aquisição, e muito menos sabe o que seu descarte representará ao meio ambiente. Nessa seara, o professor Pablo Gentili assinala que a escola passa por uma “Mcdonaldização”, processo no qual o ambiente escolar se assemelha a uma indústria que desestimula o pensamento crítico e prepara o jovem para atuar apenas como mão de obra. Em síntese, não ocorre uma difusão de saberes que contemplem as questões ambientais e debates sobre redução do consumo são raros no ambiente escolar.
Urge, portanto, que o governo federal, por meio do Tribunal de Contas da União, direcione capital para o Ministério da Educação, que deverá reverter a verba na implantação da disciplina de Educação Ambiental nas escolas com o objetivo de capacitar os estudantes a desenvolverem uma consciência ecológica e passarem o conhecimento aos amigos e familiares. Ademais, a disciplina deverá ser integrativa e abranger tanto os aspectos teóricos, sobre os impactos ambientais e a cadeia de produção industrial, assim como aplicar esse conhecimento na elaboração de projetos de coleta e reciclagem dentro da sua comunidade. Dessa forma, espera-se, munir a população com conhecimento e estimular a mudança nos hábitos de consumo, para que sociedades soterradas por sucata como a de Wall-E, sejam apenas ficção.