O lixo e a sociedade de consumo no Brasil
Enviada em 19/11/2021
No quadro colonial “Negros Cangueiros”, do renomado artista Jean-Baptist Debret, é retratada uma cena cotidiana do transporte do lixo dentro de tóneis a fim de serem despejados no mar e em lagos. Para além das artes plásticas, nota-se que o descarte inadequado do lixo tem suas raízes culturais, as quais potencializam os desafios da gestão dos resíduos sólidos e ocasionam problemas sociais. Diante disso, fatores como inócuas políticas socioambientais, bem como, razoável educação ambiental, favorecem, lamentavelmente, a perpetuação desse nocivo e delicado cenário.
Em primeira análise, convém pontuar a apatia de grande parte dos gestores para a problemática do lixo e a prevalência de uma visão de inesgotabilidade da natureza. Nessa perspectiva, muito embora haja a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), ainda é evidente os numerosos lixões a céu aberto no Brasil, conforme Abrelpe, cerca de 3000 dos 5570 municípios do país mantêm esses locais em funcionamento. Dessa forma, tal descalabro contraria o desenvolvimento sustentável e o artigo 225 da Constituição Federal, pois o ínfimo investimento nesse âmbito inviabiliza a qualidade de vida dos cidadãos, como também a respeitabilidade das presentes e futuras gerações.
Ademais, é relevante destacar a mínima educação ambiental de majoritária parcela da sociedade nacional, o que contribui para a permanência de atitudes destrutivas e pouco ecológicas. Isso porque o consumo desenfreado no cotidiano maximiza o descarte de embalagens plásticas, e-lixos e restos orgânicos, demonstrando o ecocentrismo para com o meio natural. Acerca disso, percebe-se o perfil de supercidadão em casa e subcidadão na rua – consoante o antropólogo Roberto da Matta – onde o indivíduo age de forma paradoxal quando se trata dos resíduos sólidos fora de seus domicílios, como uma anestesia social perante o ecocídio. Assim, o analfabetismo ambiental compromete a plena funcionalidade dos ecossistemas e a habitualidade cidadã.
Em síntese, fazem-se inadiáveis legítimas resoluções para reverter esse cenário de descaso ambiental. Posto isso, cabe ao Ministério do Meio Ambiente, em parceria com o MEC e empresas público-privadas, a criação de um plano nacional e instersetorial, que vise melhorar a gestão de resíduos sólidos. Tal projeto será instrumentalizado mediante construções de aterros sanitários e aumentar o número de empresas de reciclagem nos municípios, além de campanhas educativas e sensibilizadoras nas mídias para a população em geral. Por fim, nas escolas as crianças e os jovens devem participar de feiras culturais e educacionais sobre a poluição sólida a fim de que os descartes incorretos desses materiais fiquem apenas nas telas de Debret.