O papel da mulher no futebol
Enviada em 02/05/2020
Fragilidade. Delicadeza. Vulnerabilidade. Essas são algumas atribuições que, ainda hoje, cerceiam as atividades destinadas ao público feminino, como o futebol. Esse parâmetro de feminilidade é desconstruído na utopia “Terra das Mulheres”, de Charlotte Perkins, no qual um explorador percebe, ao deparar-se com uma sociedade altamente desenvolvida, composta exclusivamente de mulheres, que os “charmes femininos” são apenas um reflexo da masculinidade - desenvolvido para agradar os homens-, e não um registro fiel das características femininas. Na realidade, o futebol pode ser usado para reafirmar essa concepção , libertando as mulheres de imposições patriarcais e situações opressoras.
A priori, o sociólogo Pierre Bordieu diz que aquilo que foi criado para ser um instrumento de democracia não deve ser convertido em uma ferramenta de manipulação. No entanto, a exclusão de mulheres do futebol vai de encontro a esse princípio, pois, ao invés de ser um exercício de cidadania, o esporte atua como mais um impasse na participação da mulher no espaço público. Exemplo disso, é o salário do jogador Neymar no clube Santos de 1,5 milhões mensais, segundo o portal Estadão, que era suficiente para manter toda equipe feminina durante um ano mas, mesmo assim, ela foi encerrada em 2012 pelo time sob a justificativa de ser insustentável. Nesse sentido, a persistência das mulheres em combater esse tipo de injustiça no futebol representa toda uma luta no enfrentamento de disparidades em vários âmbitos da vida social.
Em segunda análise, o futebol pode ser encarado pelas mulheres como um instrumento de denúncia. Isso porque, haja vista que tal público é, atualmente, subrepresentado nos órgãos de poder, a notoriedade promovida pelo esporte é um caminho para ampliar a consciência social acerca do machismo e suas consequências, como assédio e o feminicídio. Prova dessa tendência, foi a que a primeira transmissão em TV aberta da Copa de Futebol Feminino possibilitou que jogadoras, como Marta da Silva, pudessem denunciar a desigualdade salarial entre os gêneros no futebol, e assim ampliar o debate acerca do assunto em vários veículos de comunicação. Desse modo, essa atividade deve ser usada pelo público feminino como um amplificador da luta pela igualdade e respeito.
Portanto, a fim de potencializar o protagonismo da mulher no futebol, é mister que a sociedade civil auxilie esse grupo na conquista de mais espaço no esporte. Isso pode ocorrer por meio das Leis de Iniciativa Popular, em que a população apresente projetos de leis ao Congresso Nacional que visem a promoção de cotas femininas nos clubes de todo o país, com o fito de alcançar uma situação de equidade entre os gêneros. Logo, nessa direção, será possível aproximar o Brasil da utopia de Perkins, entretanto, dessa vez, visando um país para todos.