O papel da mulher no futebol

Enviada em 06/05/2020

No clássico “Segundo Sexo”, a pensadora francesa Simone de Beauvoir argumenta que a mulher, historicamente, foi tratada como o sexo em segundo lugar, como uma “sombra” da primogenitura do homem, que na sociedade judaico-cristã, sempre fora o primeiro. Logo, os desejos, as vontades e a própria identidade feminina partiriam, em primeiro lugar, do homem. Nos dias atuais, tal crítica se encontra cada vez mais contundente, e o papel da mulher no futebol o evidencia bem. A realidade do futebol feminino sucateado e sem investimentos demonstra a posição de “segunda” da mulher. Isso se deve, em grande nível, ao sexismo estrutural social e a falta de investimentos em tal área.

Em primeira lugar, é importante entender como estruturalmente a sociedade se “molda” contra a mulher. Segundo o pensador Lévi-Strauss, o machismo encontra alicerces e vias de propagações nas próprias instituições sociais, como a família, a escola, a igreja, entre outros. Logo, atividades como o futebol feminino encontra obstáculos repressivos em tais estruturas, que apartam a mulher pois seria uma atividade “apenas para homens” e sustentam um ideário feminino que impede o pleno desenvolvimento de suas capacidades e desejos através de uma violência simbólica e até mesmo, em alguns casos, física contra as mesmas.

Além da violência estrutural, a falta de investimentos públicos e privados representa um empecilho para o futebol feminino. Como apresenta um levantamento do “Congresso em Foco”, apesar da jogadora Marta, da seleção brasileira e eleita melhor jogadora do mundo seis vezes, ter mais que o dobro de gols que o jogador Neymar pela seleção brasileira, o jogador recebe mais de 74 vezes mais por gol marcado, e recebe um salário anualmente 14 milhões maior. A situação do futebol feminino não é particular, pois como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revela, uma mulher recebe 72,3% do salário de um homem que ocupa o mesmo cargo e possui a mesma escolaridade ou menos. Assim sendo, lida-se de uma questão social estrutural que exige uma resposta também social e estrutural.       Portanto, para reformular o papel da mulher no futebol como uma protagonista, é necessário a promoção de uma reformulação curricular pelo Ministério da Educação para combater o machismo estrutural, adicionando o estudo da condição feminina e de personagens femininas que marcaram o mundo e tantas vezes são esquecidas. Para além disso, é necessária uma parceria público-privada em nível federal,de isenção parcial de impostos para empresas que promovessem o esporte feminino como um todo, a fim de incentivar o investimento no mesmo, além de um subsídio governamental no preço da entrada dos jogos, com o intuito de facilitar o acesso familiar nos estádios. Assim, parando de tratar a mulher como o segundo sexo, pode-se pensar numa realidade onde Marta e Neymar sejam iguais.