O papel da mulher no futebol

Enviada em 22/10/2020

Os movimentos feministas - inaugurados no início do século XX - atuaram como uma resposta radical à ordem patriarcal da época, em prol da internacionalização da igualdade social e política. Paralelo ao contexto hodierno, constata-se a importância da reivindicação por direitos iguais entre homens e mulheres, em virtude da historicidade de privilégios atribuídos ao gênero. Dessarte, torna-se premente analisar o papel feminino no futebol contemporâneo, bem como expor seus principais obstáculos: a negligência governamental e a indiferença da sociedade civil.

A princípio, é imperativo pontuar que a Carta Magna de 1988 assegura o princípio da isonomia, isto é, todos são iguais perante a lei. Todavia, é nítido que o preceito jurídico faz-se pouco efetivo em metodologias práticas, uma vez que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ganham menos do que os homens desempenhando as mesmas funções e com o mesmo nível de escolaridade. De maneira análoga, a obra " Cidadãos de Papel"  -idealizada por Giberto Dimenstein- retrata a falta de acesso dos cidadãos aos benefícios normativos, comprovando a insuficiência constitucional. Desse modo, tal cenário patológico, inerente ao esporte, desestimula a entrada feminina no ramo, haja vista o descaso do Poder Público com a aplicabilidade legislativa.

Sob outro prisma, é válido averiguar que questões socioculturais interferem no desempenho das mulheres no futebol atual. Embora se viva em um país democrático, marcado pela paridade de faculdades jurídicas, observa-se uma carência de engajamento da civilidade na transformação de comportamentos e pensamentos arcaicos. Nesse sentido, de acordo com o filósofo alemão Jürgen Habermas, em seu conceito de “democracia deliberativa”, a verdadeira democratização de direitos apenas ocorre com a participação plena dos cidadãos na esfera pública. Posto isso, denota-se que a ausência de emancipação social prejudica o protagonismo feminino em diversos âmbitos.

Em síntese, a observação crítica dos fatos mencionados reflete a urgência de providências para mitigar a problemática supracitada. Portanto, compete ao Ministério da Cidadania, mediante verbas governamentais, implementar um programa nacional de incentivo à atividade feminina no esporte. Isso deve ser feito a partir de investimentos públicos na construção de escolas de preparo técnico e  de instrução teórica em nível federal, estadual e municipal, com a finalidade de reduzir a concentração masculina no ramo e, assim, promover a alocação de mulheres no futebol. Ademais, cabe ao Ministério da Educação (MEC), por meio de mudanças na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), acrescentar uma disciplina específica voltada para a Cidadania nas instituições de ensino de base, a fim de fomentar a atuação coletiva nas instituições democráticas para a efetivação de direitos cívicos.