O papel da mulher no futebol

Enviada em 11/05/2021

Berço de inúmeras conquistas sociais, vide o sufrágio feminino, a “Era Vargas” também foi palco para o cerceamento da liberdade feminina. Por meio de um decreto, promulgado em 1941, as mulheres foram proibidas por décadas de praticar esportes incompatíveis com a feminilidade. Diante disso, apesar da proibição, elas nunca deixaram de jogar futebol e outros esportes que iam de encontro à “essência feminina”. Contudo, inevitavelmente, os efeitos negativos da proibição assolam o esporte até hoje, ocasionando os ínfimos incentivos e a falta de patrocínio.

A priori, evidencia-se que, por vezes, a resistência estatal é o menor dos obstáculos enfrentados por mulheres e meninas. De modo que, comentários negativos, advindos de familiares, dos companheiros e de amigos, atuam de forma muito mais incisiva na interrupção de seus sonhos. Prova disso, uma pesquisa desenvolvida pela empresa “Pés Sem Dor” revelou que 60,6% das mulheres brasileiras nunca jogaram futebol, sendo que boa parte respondeu que não o fazia por ser mulher. Assim sendo, torna-se cada vez menor o número de garotas interessadas pelo esporte, bem como, a escassez de novas revelações dificulta seu desenvolvimento no território nacional.

A posteriori, por receber menor visibilidade da mídia, a modalidade feminina perece pela falta de investimentos. Em vista disso, o futebol feminino ocupa um espaço preterido em detrimento de uma prática esportiva masculina supervalorizada e patrocinada. Apesar da escancarada disparidade, ao passar dos anos, uma quantidade notável de empresas têm anunciado o patrocínio às equipes femininas. Ante o exposto, a “Uber”, empresa de mobilidade, tornou-se, em 2019, a primeira iniciativa privada a patrocinar o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Embora uma ação a ser celebrada, ela ressalta a lenta valorização da presença feminina na prática futebolística, o que acaba por deslegitimar o papel da mulher em esportes alegadamente masculinos.

À vista disso, depreende-se a importância simbólica e ativa da inserção de figuras femininas em todos os fenômenos desportivos. Destarte, urge que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), bem como setores da iniciativa privada, destinem recursos financeiros e materiais, mediante a criação de uma quota de investimentos equânime a ser destinada às equipes de base e elite femininas, a fim de efetuar mais “peneiras” de seleção e frear a sua progressiva desvalorização. Ademais, cabe às mídias sociais e televisivas fomentar o interesse do público pela prática, por meio de campanhas publicitárias que evoquem as glórias das seleções, para que mais indivíduos tornem-se acompanhantes assíduos. Dessa forma, meninas e mulheres não serão impedidas devido a uma masculinidade, dita inerente ao futebol.