O papel da mulher no futebol
Enviada em 05/10/2021
Lima Barreto, em “Os Bruzundangas”, publicado postumamente em 1922, faz uma sátira da vida brasileira nos anos iniciais da Primeira República, nos quais diversos problemas sociais, econômicos e culturais eram vivenciados pela teia coletiva. Fora do contexto literário, quase um século após a sua publicação, infelizmente, ainda são persistentes imbróglios no seio social tupiniquim, uma vez que o preconceito com o papel da mulher no futebol impede o funcionamento harmônico das engrenagens nacionais. Com efeito, essa chaga mantém-se seja pela letárgica atuação coletiva, seja pela inobservância do poder público. Urge, assim, a necessidade de analisar e de buscar meios para atenuar esse cenário.
Nesse contexto, é incontrovertível que a omissão social é fator cristalizador desse infortúnio. A respeito disso, o sociólogo Pierre Bourdieu afirma que a maneira a partir da qual os indivíduos incorporam, reproduzem e legitimam a estrutura social a que pertencem, resultará na promoção de padrões comportamentais. Nessa lógica, sob o prisma do pensamento bourdiano, é notório que a ineficaz atuação da sociedade frente ao machismo exacerbado é resultado de deturpados costumes - enraizados na teia coletiva - como, por exemplo, a divisão de esporte para homem e mulher. Em consequência disso, a mulher é vista como não confiável para determinados cargos no futebol - como a arbitragem.
Por outro lado, é fulcral destacar a inoperância estatal como agente catalisador dos desafios vigentes. Nesse viés, consoante ao pensamento filosófico de John Rawls, a “justiça social” é uma construção moral e política baseada na igualdade de direitos. No entanto, essa tese não é vivenciada no hábito, haja vista as ínfimas ações do Estado- gestor do bem-estar coletivo-, as quais resultam em políticas públicas falhas que tornam ineficazes as garantias conquistadas em 1988 com a “Constituição Cidadã”. Com isso, o artigo 5º, se torna utópico por a igualdade perante a lei não ser vigorada.
Infere-se, portanto, necessidade de ação conjunta entre o Estado e a sociedade. Para tanto, o Poder Executivo, sobretudo na voz do Ministério da Cidadania, deve projetar um plano nacional de erradicação do machismo, por intermédio do aumento dos repasses financeiros - fomentados pela alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias - para a infra estruturação física e para a logística deste plano, com intuito de efetivar o importante papel da mulher no futebol. Ademais, o corpo social por meio de agremiações e de associações locais, deve promover debates, palestras e ouvidorias para romper com os padrões comportamentais. Com isso, a modernidade será afastada dos dilemas enfrentados pela sociedade bruzundanguense.